15 de agosto de 2020
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Não é vingança, mas os fatos dão razão a Siufi

Para escolher Edson Giroto como seu candidato a prefeito em 2012, o PMDB iniciou um jogo de cartas marcadas. Embora sobre a mesa estivesse um baralho com várias cartas, o coringa já havia sido escolhido pelo governador André Puccinelli, que deu as cartas e jogou de mão. Tinha direito e exerceu, dentro desse direito, toda a  autoridade que precisava para impor o nome que julgava mais adequado, além de, com essa cartada, evitar uma imprevisível e desgastante disputa interna.

Mas nem a autoridade, o direito e a necessidade preventiva vislumbrada por Puccinelli poderiam justificar o engessamento do debate peemedebista sobre sucessão, propostas, alianças, definição de perfis e, por último, a escolha do candidato. Este seria o ritual mais apropriado á história e à própria concepção existencial do partido, que nasceu como uma grande frente, o MDB (Movimento Democrático Brasileiro). Aquele foi o artifício legítimo encontrado para agrupar as forças num processo unificado de luta e de mobilização contra a ditadura.

O PMDB nasceu do MDB, ventre de outras legendas que tornaram possível derrubar o regime de exceção e instalar o povo no protagonismo das mudanças, fornecendo gente e ideais que abasteceram organizações como o PT, o PSDB, o PTB (depois PDT), o PV e os reabilitados PCB e PCdoB, entre outras. Em todo o País, o PMDB, estando ou não no poder, é ainda o partido melhor estruturado e enraizado, presente em todos os municípios. E por força de confissão de fé ideológica e de organicidade deve ser - ou deveria ser -, sempre, um partido que prega a democracia e a pratica.

O PMDB sulmatogrossense andou na contra-mão ao sufocar a voz de suas bases que, a bem da verdade, não repudiavam Giroto, porém exigiam, no mínimo, uma consulta prévia e efetiva às instâncias representativas, um procedimento comesinho de democracia e de respeito à divergência de opiniões. Siufi foi o que, de início, mais alto protestou por critérios democráticos. Ele assumiu a ambição de ser prefeito e de disputar a indicação do partido para concorrer. Sabia da preferência de Puccinelli por Giroto e sabia também que o prefeito Nelsinho Trad não iria contrapor-se ao governador.

Outros peemedebistas, entre os quais um de seus dirigentes, Ezacheu Cipriano Nascimento, integraram por momentos o coral dos descontentes, mas aos poucos Siufi foi ficando quase no deserto e deixou de protestar, vencido pela tratorada. Sem saída, teve que aderir à "girotização" do processo. Perdia, com isso, a grande chance de, ao menos, perfilar como liderança consolidada do PMDB para disputas daquele nível. Era o presidente da Câmara pela segunda vez e havia alcançado uma considerável posição no contexto midiático, inclusive com estímulos em pesquisas de opinião.

Hoje, ao participar de uma reunião orquestrada pelo suplente de senador Pedro Chaves, articulador político do prefeito Alcides Bernal, e com a presença do candidato do PT Delcídio Amaral, o vereador Paulo Siufi é chamado de traidor por alguns afobados do patrulhismo áulico. Isto, um ano depois de não ter ouvido as mesmas vozes protestarem contra a vassourada em seu nome no processo de pré-consulta partidária para escolha do candidato que perderia as eleições para Bernal. Só isso. Nem será necessário fazer parte da base de sustentação do atual prefeito. Já deu sua resposta. Sem sabior de vingança, talvez. Mas temperada.

Edson Moraes