28 de novembro de 2020
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Política

O roseiral de Gaeta agora está numa mini-fazendinha de cabras e carneiros

Combativo ex-deputado fez história com polêmicas, arroubos místicos e ferrenhos embates com adversários

Quem chegar em uma pequena propriedade de Nobres – uma cidade com cerca de 17 mil habitantes, a 145km da capital mato-grossense, Cuiabá – será recebido por um senhor amável, de sorriso, roupas e jeito simples, ar bonachão e convidativo. Assim, do jeito que era no dia-a-dia normal, fora da tribuna e dos embates políticos que travou nos anos 1970-80.

Mas o senhor tranquilo e cordato dava lugar a um homem inquieto, inflamado e pronto para atacar e contra-atacar quando desafiado nas suas ideias e razões dentro do cenário político e ideológico. Continua do mesmo jeito, mas restrito às redes sociais e diante de quem o procura para se aconselhar ou apenas falar sobre política. Cecílio de Jesus Gaeta e sua história permanecem intactos e conservados dentro de uma “mini-fazendinha” em seu estado natal.

ROSEIRAL QUERIDO - Nascido em Cuiabá, construiu sua trajetória política em Corumbá. Sua vocação para os enfrentamentos e a facilidade de comunicação, enriquecida por recursos metafóricos e de envolvente retórica populista, logo abriu as portas da vida publica e da atenção dos eleitores, a quem chamava de “meu roseiral querido”. Eleito vereador, sentiu que poderia voar mais alto. Expressiva parcela do povo corumbaense identificou-se com seu estilo e Gaeta foi às urnas pela segunda vez em 1970 para se eleger deputado estadual. Estava iniciando, aí, um capítulo destacado e singular na historiografia da vida publica regional.

Ao longo de cinco mandatos – um de vereador e quatro de deputado estadual (dois por Mato Grosso pré-divisão e dois por Mato Grosso do Sul) -, Gaeta fez e aconteceu. Foi filiado ao MDB – partido criado para ser oposição à ditadura militar – e confundido, por causa disso, como ativista de esquerda. Nunca foi. Sempre esteve em sentido contrário. É declaradamente um nacionalista de direita, anticomunista.

Em seus mandatos tinha o cuidado de conciliar ataques ferozes a governantes regionais ligados ao regime, porém poupava as Forças Armadas. Mas, justiça seja feita: Gaeta não regateava adjetivos desqualificadores e verborragia violenta contra forças estaduais de segurança, as polícias Civil e Militar.

Colecionou inúmeros casos de violência policial para levar aos palanques e programas de rádio e TV. O que pouca gente sabe é que fora da mídia ele pessoalmente prestava solidariedade e apoiava as vítimas. Era um ser humano. Os servidores mais antigos das Assembleias Legislativas dos dois Mato Grosso até hoje falam, com saudade, do tempo em que Gaeta foi deputado, citando-o como um político que gostava dos funcionários e não os deixava na mão.

MARCAS - Jesus Gaeta discursando seduzia os ouvintes, acreditando nele ou não. Para prender as atenções do povo que o seguia, emocioná-lo e arrastá-lo sabia como criar as frases de efeito e metáforas impactantes, untadas de arroubos populistas. Nos palanques e nos programas de propaganda eleitoral começava e terminava sempre da mesma forma, repetindo chavões e repetitivas saudações: “Bom-dia meus queridos e queridas lavadeiras, carroceiros, charreteiros, alfaiates, engraxates, pescadores, cozinheiras, picolezeiros, empregadas...” E assim por diante, numa narrativa longa e enfadonha para quem não se sentia afagado com a ladainha.

Esta era uma das marcas dele e agradava a quem ele queria agradar, sua grande massa de eleitores. Porém, haviam outras marcas que o consolidaram no imaginário popular. Místico, apresentava-se com roupas berrantes, geralmente paletó vermelho. Inevitáveis também eram os acessórios pessoais: rosas na lapela e nas mãos para distribuir e os amuletos de santos católicos e de Umbanda, religião afro da qual foi um dos principais divulgadores.

Contudo, sua marca mais preciosa, e que desafia a lógica da memória fraca, é a música que se tornou prefixo dos programas do horário gratuito, de abertura e encerramento dos comícios e dos serviços de alto-falante que anunciavam as atividades de campanha: “A Namorada Que Sonhei”, canção escrita por Osmar Navarro e um dos maiores sucessos do cantor popular Nílton César nos anos 1960-70.

A introdução dessa música era a senha do rebuliço emocional e delirante do gaetismo. E ele temperava a onda, provocador, a cada vez que fazia uma denúncia atacando os seus adversários: “Canta, Nílton César, canta que a sua música vai acende a esperança desse povo que sofre com tantas injustiças. Canta, Nílton César, canta que nós vamos acabar com essa pouca-vergonha”! Uma receita infalível que levantou Jesus Gaeta ao pico da visibilidade midiática por quase 20 anos.

SAPATADA - Mas, tudo que sobe, desce, sentencia a experiência dos sábios. Assim como subiu, a estrela de Jesus Gaeta um dia desceu. Na primeira legislatura da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (1979-82) Gaeta entrou em rota de colisão com o governador Wilson Martins e as principais lideranças do MDB. Recusava-se a aceitar as resoluções e orientações partidárias, afirmando que não era de aceitar cabresto.

Num dos seus atos de rebeldia, em 1984 entrou na chapa da oposição e deu o voto decisivo para eleger Gandi Jamil (PDS) presidente da Assembleia. Assim, Gaeta foi à forra com Wilson Martins, porque seu voto derrotou o deputado peemedebista Nelson Buainaim, o candidato do PMDB. Na época, eram 24 os deputados estaduais, 12 do PMDB e 12 do PDS.

Com a Casa cheia, logo que a Mesa Diretora anunciou o resultado de 13 a 11 para Gandi, uma parcela do publico, formada por militantes da Juventude do PMDB, vaiou Gaeta ruidosamente. Um sapato foi lançado contra Gaeta. Imperturbável, ele guardou o sapato e levou consigo para seu gabinete, como souvenir. Após esse episódio, e mesmo fazendo parte da Mesa Diretora, as perspectivas políticas e eleitorais começaram a se estreitar para ele.

Com quatro mandatos, em 1986 tentaria o quinto. Todavia, tinha perdido o controle do partido numa disputa na Convenção Municipal de Corumbá e o Diretório Regional, por orientação dos dirigentes do PMDB, não homologou sua candidatura. Gaeta afirma ter sido vítima de um golpe engendrado por Wilson Martins para destruí-lo politicamente.

VARANDAS DO TEMPO – Gaeta deixou as arenas de combate político e com sua aposentadoria parlamentar foi cuidar da vida pessoal. Teve perdas de grande impacto, como a morte da esposa, de dois filhos e netos. Resistente, esse pequeno produtor rural de Nobres hoje vê dias e noites pelas varandas do tempo, talvez sem vontade alguma de voltar atrás.

Aos 83 anos sente-se fortalecido pela fé e por um sentido existencial superior que o anima a cada dia. Da soma de seus erros e acertos, que foram muitos nessas duas quadraturas, ficaram a vontade de continuar caminhando, a experiência que apazigua a alma e muita disposição para as coisas simples.

Nas coisas simples ele se manifesta no dia-a-dia. Ora para se comunicar com o mundo pelas redes sociais, intitulando-se “Cecílio, O Panfletário”. Ora para remoer lembranças dos momentos de aclamação popular em comícios, a maioria no Bairro Santa Terezinha, em Corumbá. E regularmente na febril atividade da mini-fazendinha, como denomina a propriedade aonde produz pequenos animais.

São “cabras de leite, carneiros, que logo estarão postos à venda”, revela em rede social. “Leite de cabra teremos uma produção de até 100 litros diários. Tudo isso não acontece por milagre. Deus disse: Faça que te ajudarei. Uma carroça tendo como tração um jumento! Agora, mãos à obra!”