06 de dezembro de 2021
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Principais candidaturas chegarão em 2016 contaminadas por escândalos

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Por melhores e mais sugestivos que sejam seus feitos administrativos e políticos, a maioria dos principais pré-candidatos ou aspirantes à disputa sucessória de Campo Grande vai fechar 2015 sob o olhar de indignada desconfiança da opinião publica. Na balança onde seus currículos estarão sob julgamento do eleitorado, os “contras” vão pesar bem mais que os “prós. Ainda que sejam apenas denunciados, acusados ou processados, a simples suspeita lançada já é, por si, suficiente para a sentença sumária e reprovadora de um povo revoltado com tanta corrupção e notícias de escândalos todos os dias.

Descartados o governador Reinaldo Azambuja (PSDB) e seu antecessor André Puccinelli (PMDB), que reafirmou estar fora da disputa sucessória local, a lista das principais pré-candidaturas ou nomes especulados entre as opções partidárias são: o prefeito Alcides Bernal (PP); o ex-prefeito Nelson Trad Filho (PTB); o deputado estadual Marquinhos Trad (PMDB); o deputado federal Zeca do PT e seu correligionário, deputado estadual Pedro Kemp; o médico e presidente da Cassems, Ricardo Ayache, e a deputada federal Tereza Cristina (PSB); a vice-governadora Rose Modesto e o vereador João Rocha, presidente da Câmara Municipal (PSDB); os peemedebistas senador Waldemir Moka, deputado federal Carlos Marun e vereadores Carla Stephanini e Paulo Siufi; e o deputado federal Luiz Henrique Mandetta (DEM).

NELSINHO TRAD – O ex-prefeito não tem contra si sentença transitada em julgado. Aparentemente, é um dos que gozam de melhor posição nas pesquisas mais recentes de intenção de voto. A situação estaria muito melhor e mais favorável se Nelsinho não tivesse no seu rastro incômodas sombras que herdou dos oito anos com a chave da Prefeitura nas mãos. É na sua conta de chefe do executivo que está concentrada a responsabilidade pela abertura dos cofres do Município a um esquemas de sangria de verbas públicas, comandado pelos empresários João Amorim e João Baird.

A entrega de serviços de coleta e de limpeza de lixo, de pavimentação e restauração e de tecnologia resultou em operações policiais e inquéritos que indicam a incestuosa relação entre o publico e o privado. Descobriu-se que a bilionária licitação para os serviço de limpeza publica foi feita para favorecer a Solurb, um consórcio montado a toque de caixa e posto sob o nome de um genro de Amorim.

Além das vultosas fatias do orçamento destinadas a empreiteiras do grupo sob investigação da Polícia, Nelsinho ainda tem a pendência instalada por um procedimento do Ministério Publico, que o denunciou juntamente com outros 25 servidores por irregularidades na contratação do Gisa, um sistema de informatização da saúde. O contrato custou cerca de R$ 10 milhões (sem atualização) e o sistema não funcionou.

MARQUINHOS – Em princípio, teria a preferência da família Trad para o enfrentamento eleitoral. De favorável à sua candidatura, as pesquisas o colocam entre os três com mais intenções de voto, ao lado de Bernal e Puccinelli. De desfavorável, Marquinhos terá de assimilar a inevitável “contaminação” com os escândalos que aos poucos vão colando no irmão Nelsinho, começando a desfigurar a aura de excelência administrativa que o enfeitou com mais de 80% de aprovação de governo ao encerrar o mandato.

MANDETTA – O deputado do DEM era o secretário de Saúde quando Campo Grande fechou o contrato com o consórcio Telemidia Technology para implantar o Gerenciamento de Informações Integradas de Saúde (Gisa). A inovação informatizaria e daria agilidade às consultas e ao sistema de saúde da capital. O Ministério Publico Federal achou indícios de fraude na implantação do software e brechas na licitação para beneficiar as empresas, algumas das quais financiaram viagens de Mandetta em período pré-eleitoral. Duas ações de improbidade foram abertas e acatadas pelo Supremo Tribunal Federal. O Ministério da Saúde cancelou o convênio com a Prefeitura e exigiu a devolução do dinheiro investido no Gisa, cerca de R$ 10 milhões.

ALCIDES BERNAL – Desastre gerencial. Este é o contra que vem dia a dia tirando do prefeito o encanto popular que o fez derrotar todo mundo nas eleições de 2012. Ele bateu o PMDB de Puccinelli e Nelsinho, o PT de Zeca e Delcídio do Amaral e o PR de Edson Giroto. Não conseguiu governar no primeiro ano, em parte por causa das bombas de efeito retardado que herdou do predecessor (Nelsinho Trad) e também pelo isolamento a que ele mesmo se submeteu, recusando-se a articular-se com as forças legítimas de representação social e política. Teve a segunda chance 17 meses depois de ser cassado, quando a Justiça reconheceu afastou o vice-prefeito Gilmar Olarte e, em agosto, devolveu-lhe o cargo sob liminar. 

Mas a máquina permanece engasgada e Bernal já ouve vozes – não são poucas – sugerindo saudades de Olarte. Para complicar, seu leal e combativo secretário de governo, Paulo Pedra, teve o mandato de vereador cassado, sob a acusação de compra de votos. O vereador João Rocha (PSDB), considerado rival político por Bernal, acaba de ser eleito presidente da Câmara e entra na linha direta de sucessão, depois de Gilmar Olarte, que está sendo processado e pode perder o mandato de vice. Se isso ocorrer, Bernal terá em João Rocha uma sombra ameaçadora, já que o tucano, eleito com apenas um voto contrário entre 29 vereadores, controla praticamente toda a Casa. A reeleição, nesst contexto, fica mais distante.

ROSE E ROCHA – Uma das lideranças da nova geração política de Campo Grande com meteórica ascensão. Nas eleições de 2014 saltou de uma cadeira da Câmara de Vereadores para ocupar, no ano seguinte, o gabinete de vice-governadora e titular da poderosa Secretaria de Direitos Humanos, Assistência Social e Trabalho (Sedhast). Estava carimbada como alternativa de ponta do PSDB para concorrer à Prefeitura de Campo Grande. Porém, cometeu um deslize primário: permitiu que dois sobrinhos, filhos do irmão Rinaldo Modesto - deputado estadual e líder do Governo na Assembleia – fossem nomeados para cargos em comissão no Tribunal de Contas Estadual. 

Além dos salários – de R$ até 12 mil mensais para um sobrinho e R$ 4,3 mil (podendo dobrar) para a sobrinha -, Rose ainda teve que aturar o desgaste atribuído à coincidência político-partidária envolvendo o episódio, já que além do nepotismo a nomeação foi assinada pelo presidente do TCE, Waldir Neves, ex-deputado federal e ex-presidente regional do PSDB, um fortíssimo aliado do governador Reinaldo Azambuja.

Com a imagem de Rose afetada, a cúpula tucana tratou de tirar a vice-governadora do foco político-eleitoral. Ficou um vazio, aos poucos sendo ocupado por João Rocha. Ele soube tirar proveito da crise em que se envolveu a Câmara por causa de escândalos como o caso de pedofilia que levou Alceu Bueno a renunciar ao mandato e as operações do Gaeco para apurar a participação de vereadores na derrubada de Bernal, com a mão da Justiça mandando prender parlamentares.

ZECA E KEMP – Mesmo com a prisão do senador Delcídio do Amaral e as denúncias que corroem a imagem do partido, o PT teria duas candidaturas para utilizar, ainda que quisesse ao menos cumprir um papel protocolar na disputa campo-grandense. O deputado federal Zeca e o estadual Pedro Kemp são hoje as duas possibilidades do partido. Zeca já sinalizou que depois da prisão de Delcídio ficou difícil pensar em projeto de candidatura, embora seja o petista de maior capilaridade eleitoral em Mato Grosso do Sul. Kemp não tem essa capilaridade, mas sobram nele determinação e comprometimento ideológico. Está disponível. Ele e Zeca, porém, sabem que o fato de “ser PT” na capital sul-mato-grossense mais tira que dá votos. 

RICARDO AYACHE – O médico e presidente da Caixa de Assistência dos Servidores Públicos (Cassems), Ricardo Ayache, poderia estar voando em céu de brigadeiro como pré-candidato a prefeito. É jovem, articulado, carismático, está no PSB (um partido ileso), transita em diferentes faixas do eleitorado com desenvoltura. Na estreia como candidato a cargo eletivo na política recebeu expressiva votação ano passado. Mas até ontem era filiado ao PT, partido no qual viveu 12 anos. Esse vínculo servirá de argumento eficiente para eventuais concorrentes que se incomodarem com sua inscrição no páreo sucessório. Sem os votos que teve quando era do partido de Zeca e Delcídio resta a incógnita sobre como será seu desempenho na condição de ex-petista. O passado pode condená-lo no seio da opinião publica de um cidade cada vez mais avessa ao petismo.