18 de junho de 2021
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MASSACRE NO JACAREZINHO (RJ)

Quem ganha com a operação no Jacarezinho: a milícia?

Já são reféns dos milicianos moradores de 56,8% do território da cidade do Rio de Janeiro; com a operação sangrenta, esse número de domínio pode ser ampliado

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Em duas décadas o poder armado das milícias vem se expandindo no território do Rio de Janeiro e já são reféns dos milicianos moradores de 56,8% do território da cidade, onde há uma população de 2.178.620 pessoas (33,9% da população total). Intocáveis, esses grupos estão ligados a grandes escalões do poder: no caso do Rio, são bem vistos pelo Prefeito e elogiados pelos governadores anteriores a gestão de Cláudio Castro.

O atual prefeito do Rio Eduardo Paes, reeleito nas eleições municipais de 2020, já chegou a afirmar a respeito de bairros da zona oeste em que “a tal da polícia mineira, formada por policiais e bombeiros, trouxe tranquilidade para a população”. 

Uma operação policial no dia 6 de maio de 2021, resultou num massacre na comunidade do Jacarezinho, na zona Norte do Rio, o que trouxe à tona uma dúvida. Quem ganha com esse tipo de operação violenta? 

Ontem (7. maio), o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, defendeu a operação da Polícia Civil no Jacarezinho que até agora contabiliza 29 mortos, entre eles um policial. Moradores foram baleados e a comunidade foi coberta de sangue. Mas para Castro a operação teve "o fiel cumprimento de dezenas de mandados expedidos pela Justiça", após 10 meses de investigação. 

No livro “A república das Milícias”, de Manso (2020), o autor descreve o processo de formação de alianças entre milicianos, policiais, parlamentares, bicheiros e traficantes que contribuiu para o fortalecimento das milícias nos últimos anos.

O autor segue a trajetória de alguns notórios milicianos e, dentre eles, os policiais Fabrício Queiroz e Adriano da Nóbrega, que mantinham relações com a família do presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, chegando a trabalhar ou empregar seus parentes como assessores parlamentares do atual senador Flávio Bolsonaro. Queiroz e Adriano – que, por recomendação de Flávio, recebeu a Medalha Tiradentes enquanto cumpria pena no Batalhão Especial Prisional em 2005, mas terminou assassinado na Bahia em 2019 – são apontados por Manso como importantes peças na formação das alianças que colaboraram para transformar as milícias na principal ameaça à democracia no estado do Rio de Janeiro

Se, antes, a questão criminal carioca e fluminense estava centrada nas disputas territoriais entre “comandos” ou “facções” do tráfico de drogas e os confrontos armados entre esses grupos de traficantes e a polícia, hoje o fenômeno das milícias parece ter crescido em importância.

Ainda no início do relatório “A Expansão das Milícia no Rio de Janeiro: uso da força estatal, mercado imobiliário e grupos armados”, formulado pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (GNI) e Observatório das Metrópoles, os pesquisadores destacam que há 15 anos, as milícias eram exaltadas por diversas autoridades públicas como um modelo de segurança comunitária a ser replicado em favelas e bairros populares e eram retratadas pela imprensa como uma alternativa viável (menos violenta) ao domínio territorial armado exercido por facções do tráfico de drogas.

Conforme o relatório, observou-se que de fato as investidas policiais entrando armadas nas favelas cumprem suas funções: proporcionam prejuízos aos grupos criminais armados confrontados pela polícia; resultam na prisão ou morte de suspeitos e a apreensão de armas, mercadorias e dinheiro e também impõe a esses grupos a necessidade de investir recursos na segurança armada dos territórios controlados e assim subornar agentes públicos para que reduzam a repressão aos seus negócios, transacionando as chamadas “mercadorias políticas”. O relatório aponta quem são os beneficiados com esse tipo de operação violenta.

Nas comunidades controladas pelas “milícias” não há, segundo o relatório, grande incidência de entradas policiais, com isso, não há também confrontos. Desse modo, a percepção é que nos locais controlados pelos milicianos, há uma sensação de tranquilidade, apesar de a população ter que pagar taxas para os milicianos, o que não ocorre no caso dos locais controlados por outros grupos. 

No relatório, os pesquisadores apontam: “o direcionamento do uso da força pelo Estado e a regulação e fiscalização municipal do mercado imobiliário favoreceram o crescimento das milícias”, diz.

Para interpretar os estudos, os pesquisadores usam a experiência de leitura das quase oito mil denúncias relativas ao ano de 2019, constantes da base de dados do Disque-Denúncia. (Veja AQUI) – relatório completo. 

PRESIDENTE E A MILÍCIA 

Operação desastrosa no Jacarezinho: sobe para 29 mortos, a maioria não era alvo

Jair Bolsonaro, ligado aos milicianos Adriano da Nóbrega e Fabrício Queiroz, participou de reunião com o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, na tarde da quarta-feira, 5 de maio, um dia antes da operação na comunidade do Jacarezinho. O presidente não se manifestou publicamente sobre a operação.  

Cláudio Castro, cantor católico que se diz “evangelizador”, era vice-governador na chapa de Wilson Witzel, o ex-juiz que pedia para a polícia “mirar na cabecinha” de traficantes. Witzel foi impeachmado no dia 30 de abril, com isso, Cláudio Castro ganhou de presente o cargo máximo no Estado do Rio. E foi justamente a operação no Jacarezinho, a inauguração de seu governo. 

Cláudio é amigo de Flávio Bolsonaro e, antes mesmo do impeachment de Witzel, vinha se aproximando da família presidencial, aparecendo em pronunciamentos do presidente e acenando ao governo Bolsonarista, que elegeu Witzel. Castro também é investigado no mesmo processo de crimes de responsabilidade que levou Witzel a ser removido do cargo. Pesam contra eles acusações de: 

  • Suspeita de superfaturamento na compra de respiradores para o combate ao coronavírus;
  • Licitações investigadas para a construção dos hospitais de campanha;
  • Suposto vínculo do governador com o empresário Mário Peixoto, preso em uma etapa da operação Lava Jato no Rio de Janeiro em maio;
  • Parecer do TCE sugeriu a rejeição das contas de 2019 do governo do Rio;
  • Ato do governo revogou a desqualificação da Organização Social (OS) Unir Saúde, supostamente ligada a Mário Peixoto, que havia sido proibida de prestar serviços ao poder público em outubro passado, em investigação do MPF, e era responsável pela administração de UPAs no estado.

OPERAÇÃO 

 

Intitulada Operação Exceptis, que significa "exceção", foi deflagrada pela Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), tendo como pretexto o fato de que “traficantes vêm aliciando crianças e adolescentes para integrar a facção que domina o território, o CV (Comando Vermelho)”. Foi, segundo a polícia, para proteger as crianças que pelo menos 29 pessoas foram executadas.

O rápido crescimento da milícia se deve ao fato de o grupo contar com todo o aparato bélico do Estado, já que é composta principalmente por policiais e ex-policiais no Brasil é ligada aos chefes dos mais altos escalões.  

O Jacarezinho é comandado pela facção criminosa "Comando Vermelho" - com a violenta operação da Polícia Civil, o CV é enfraquecido e assim a resposta ocorre. Quem ganha com a operação "exceção" são justamente os grupos criminosos milicianos.