27 de julho de 2021
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Antonieta Amorim: "Nasci e cresci com as ruas clamando por justiça e democracia"

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Centenas de milhares de pessoas acotovelavam-se na Candelária naquela noite memorável de 10 de abril de 1984. Estavam escrevendo uma das páginas mais importantes da história republicana brasileira. Era o primeiro grande comício popular exigindo eleições diretas para presidente. No palanque abarrotado de celebridades, políticos, artistas, atletas e empresários destacavam-se sob os holofotes. Mas a principal protagonista era a multidão, que em coro ensurdecedor clamava, em uníssono, pelo direito de ser livre para escolher seus dirigentes e seus caminhos.

Uma das vozes diluídas naquele vibrante coral das ruas era a de Antonieta Amorim, uma jovem acadêmica de Belas Artes, então com 21 anos de idade, fascinada pela magia arrebatadora do que estava vivendo. Ali, sua vida estaria marcada para sempre por alguns momentos emblemáticos, como o Hino Nacional banhado pelas lágrimas da intérprete, Fafá de Belém, e a fleuma emocionada do primeiro orador, o jurista Sobral Pinto, ao discursar amparando-se no artigo primeiro da Constituição para proclamar a vontade nacional” “Todo poder emana do povo e em seu nome será exercido”.

“Eu vivi intensamente tudo isso. Era  uma resposta e uma certeza ao que eu imaginava no meu dia-a-dia de estudante, no meu ativismo, na minha inquietude diante dos enormes abismos sociais que infelicitavam a maioria do povo. Eu não tinha uma preocupação específica com ideologias, com luta de classes, mas eu via e me revoltava com as diferenças sociais e a ausência de liberdade”, recorda a gaúcha de Palmeiras das Missões, onde nasceu em cinco de maio de 1962, numa das décadas mais agitadas e dolorosas da história política brasileira. Tinha dois anos quando eclodiu o golpe militar de 1964. Cresceu com a evolução do volume do clamor do povo pela democracia e pelas liberdades. Da infância à juventude, acompanhou o apogeu, a agonia e o fim da ditadura.

A gaúcha Antonieta teria dois lugares de referência em sua vida, no Rio de Janeiro e em Campo Grande. Boa parte da adolescência e juventude passou no Rio de Janeiro. Estudou em escolas públicas e cursou na carismática Universidade Federal (UFRJ). Formou-se em Belas Artes (Pintura) e fez a pós-Graduação em Comunicação Visual. O chão campograndense a acolheu pela primeira vez quando tinha dois aninhos e chegou com a família, quando o pai, funcionário da Caixa Econômica Federal, foi transferido.

BRIZOLISTA - Estudante, incorporava-se às lutas e mobilizações contra a ditadura e pelas diretas-já. Apesar das ferrenhas disputas entre direita e esquerda, não desenvolveu uma ideologia entre as que fervilhavam na época, mas apaixonou-se pelo brizolismo. Desde criança já se divertia recortando fotos de candidatos. E fixou-se nas figuras marcantes do trabalhismo, especialmente Leonel Brizola e Darcy Ribeiro. “Eu enlouquecia de empolgação quando lia e ouvia suas pregações, sobretudo na ênfase que davam à educação e ao nacionalismo democrático, aos direitos humanos”, lembra.

Numa dessas, Antonieta chegou ao paroxismo na defesa de seus ideais. Nas eleições estaduais de 1982, mesmo com título de eleitora de Mato Grosso do Sul, juntou-se à massa de cariocas que faziam campanha voluntária para Brizola, candidato do PDT ao governo do Rio. Já estava noiva de Nelson Trad Filho. Ele, estudante universitário, era simpatizante de Moreira Franco, candidato do PDS, partido de seu pai, Nelson Trad. O casal travava ásperos debates por causa de suas preferências. Numa dessas discussões, Antonieta arrancou o anel de noivado e jogou. “Depois eu ri, foi muito engraçado ver o Nelson procurando o anel na praça”, conta. “Mas não abri mão de minha paixão pelo brizolismo”, completa.

Foi a bordo dessa convicção que ela mergulhou, assimilado física e conceitualmente as memoráveis intervenções do governo de Brizola e as idéias de Darcy Ribeiro, como os Cieps, a Linha Vermelha, o Sambódromo, a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), o início da despoluição da Baía de Guanabara e iniciativas de autonomia social como o Programa “Cada Família, Um Lote”, inspirador dos melhores e mais modernos projetos habitacionais.

O CHAMADO - De volta a Campo Grande, o casal Nelson Trad-Antonieta, já com o primeiro filho, inicia sua trajetória profissional e social. Ele, embora filho de um dos mais ilustres políticos do Estado, parecia não instigar-se a seguir o pai. Entregou-se à carreira de médico. Mas a vida pública o chamou. Primeiro, com o convite para ser diretor-adjunto do Instituto de Previdência (Previsul) no governo de Pedro Pedrossian. Depois, no início dos anos 1990, quando o então deputado estadual André Puccinelli convidou-o para ingressar na política. Em 1992 se elegeria vereador.

Naquela vitoriosa campanha, que colocou Nelsinho Trad entre os cinco mais votados, Antonieta foi uma das principais operadoras de mobilização e estratégia. “Pé no barro, contato permanente com as pessoas, identificação com os problemas da cidade, reuniões, sempre olho no olho, sem falsas promessas. Tudo isso deu capilaridade e conteúdo à campanha”, acentua. Com a campanha e a investidura do vereador, estava instalada, efetivamente, a nova realidade política de Antonieta. Nelsinho se reelegeria vereador duas vezes, conquistaria dois mandatos de prefeito e um de deputado estadual.

Estas e as outras campanhas do PMDB (como as de André Puccinelli para prefeito e governador) e a produtiva gestão das políticas sociais da cidade, quando comandou a Secretaria Municipal de Ações Sociais e Cidadania, credenciaram-na a receber do partido o aval para fazer parte da chapa do candidato a senador Waldemir Moka. Foi em 2010, quando o PMDB teve que realizar uma prévia para escolher entre Válter Pereira e Moka quem seria o candidato da sigla ao Senado. Pereira era na ocasião o ocupante do cargo, que ficara vaga no ano anterior com a morte de Ramez Tebet. Eleito pela folgada maioria dos correligionários, Moka chamou Antonieta para sua primeira suplente. Ela havia sido uma das maiores defensoras de sua candidatura e operou intensamente pedindo o voto dos filiados.

É com esse acúmulo de experiências - e de um apaixonado ativismo pouco conhecido da população - que Antonieta Amorim, ex-mulher de Nelson Trad Filho, ingressa de vez na ciranda das disputas eleitorais e submete seu nome à apreciação do partido para ser uma das candidatas à Assembleia Legislativa. Não quer ser apenas mais um nome e muito menos um numeral para preencher a cota destinada às candidaturas de gênero. Em síntese, quer trazer na conversa direta com a população, como ela mesma diz, “olho no olho”, a essência de uma candidatura que nasceu de raiz sólida, nas ruas e no clamor legítimo de um tempo que marcou as grandes transformações do País.

Edson Moraes, especial para MS Notícias