25 de setembro de 2020
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Caso Olarte: constrangimento, mistério e um incômodo segredo de justiça

Após um rumoroso processo de denúncias e manobras políticas e judiciais, o prefeito eleito de Campo Grande, Alcides Bernal (PP), teve seu mandato cassado no dia 12 de março pela Câmara de Vereadores. Foi substituído pelo vice-prefeito Gilmar Olarte, do mesmo partido. Um mês depois, no dia 11, o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) cumpriu um mandado de busca e apreensão na casa do prefeito de Campo Grande, Gilmar Olarte (PP). Ao mesmo tempo, policiais prenderam dois seguranças do prefeito em Campo Grande por porte ilegal de arma e um assessor em São Paulo.

A causa da operação até agora é um mistério. A Polícia não dá informações porque a investigação corre sob segredo de justiça. De um lado, especula-se que a ação policial tem origem nas denúncias de Bernal, atribuindo sua cassação a um complô envolvendo políticos adversários, vereadores, empresários, setores da mídia e o próprio Gilmar larte. De outro lado crescem outras versões, uma delas tão ou mais constrangedora para o atual chefe do Executivo campograndense que a motivação política. E esta novidade justificaria o segredo de Justiça devido à enorme dimensão do constrangimento que causaria aos envolvidos.

VÍDEOS - Uma das peças fundamentais da investigação - e que provavelmente explicaria as operações policiais - seria um suposto arquivo contendo vídeos reveladores que poderiam envolver Olarte e até submetê-lo a um rito processual tão impactante quanto o que defenestrou Bernal. Paraquem acompanha atentamente o caso, além da questão política a polêmica em torno de Olarte se retempera em função de seu protagonismo como pastor evangélico e fundador da Igreja Assembléia de Deus Nova Aliança (ADNA). É nesta igreja que Olarte congregou com duas das pessoas ouvidas até agora pelo Gaeco: o ex-assessor Ronan Edson Feitosa de Lima, preso em São Paulo, e o pastor Rubens.

Ronan é tido como braço-forte de Olarte, embora defensores do atual prefeito insistam em vinculá-lo a Bernal. A versão do golpe político é reforçada porque um dos vídeos reveladores identificaria personagens conspirando para derrubar Bernal e ajustando os benefícios de cada um, com a distribuição de cargos na administração de Olarte. Algumas figuras desse histórico são emblemáticas. É o caso, por exemplo, do atual secretário de Governo de Olarte, o advogado Rodrigo Pimentel. Filho do desembargador Sideni Soncini Pimentel, ele foi uma as peças-chave na montagem do processo jurídico que derrubou Bernal, para quem trabalha desde o ano passado.

Uma coluna da revista IstoÉ, de 30 de março, registrou a suspeita do complô e da distribuição de cargos com dois tópicos, a seguir reproduzidos entre aspas:

Garganta profunda!

Prefeito cassado de Campo Grande (MS), Alcides Bernal (PP) preparou vídeo em que se diz vítima de golpe político e revela conversa em que o assessor especial Ronan Feitosa já falava, em outubro, da armação para a cassação e como compraria o apoio dos vereadores. Quem apoiasse o golpe ganharia cargo no novo gabinete do então vice Gilmar Olarte (PP). Feitosa antecipa nomeações que só ocorreriam cinco meses depois pelas mãos do novo prefeito.

Garganta Profunda II

Quem votou pela cassação recebeu sua cota. Cezar Afonso foi nomeado para o Meio Ambiente, André Scaff foi para Finanças, Rodrigo Pimentel é secretário de governo e Edil Albuquerque assumiu a Secretaria de Ciência e Tecnologia.

CORREDORES

Mas os corredores do Parque dos Poderes da Câmara de Vereadores de Campo Grande atiçam fogo a uma outra versão, de cunho ético e moral, e por isso tratado com reservas pela Justiça e pela Polícia. Gabinetes de poderosos, aliados ou não de Olarte, já discutem qual será o futuro do prefeito recém-investido se essa versão for verdadeira, ganhar fôlego e romper a redoma do segredo de justiça. Para alguns observadores bem-informados, existe a possibilidade de nova mudança política e administrativa na cidade.

O vereador pedetista Paulo Pedra já proclamou em alto e bom som que está por vir um furacão político e policial sobre Campo Grande nos próximos dias e o advogado Eduardo Botura, um especialista em fuçar atividades suspeitas, desafia os incrédulos a provar que a derrubada de Bernal e a ascensão de Olarte não tiveram descerrado totalmente o véu que encobre os dois processos. Por polícia ou qualquer outra razão, a pergunta que fica é: qual a razão de uma intervenção do Gaeco? Afinal, a polícia é especializada no combate ao crime organizado.

Heloísa Lazarini