24 de novembro de 2020
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CONTRAMÃO

Na pandemia, vaidade e politicagem mostram faces do oportunismo em MS

Médico, político em decadência e ativista de carona debocham de esforço do prefeito para barrar coronavírus em Campo Grande

O médico Antonio Cruz Neto, o ex-candidato a senador Marcelo Miglioli e a militante da direita terraplanista Juliana Gaioso Pontes protagonizaram neste final de semana um dos espetáculos mais lamentáveis e deprimentes do oportunismo político estimulado pela calamidade causada com a pandemia do Covid-19. O trio atacou com vídeos e memes as ações e manifestações do prefeito Marquinhos Trad (PSD) para combater o coronavírus, defender a população e criar em Campo Grande uma rede preventiva e de proteção contra a propagação da doença. Campo Grande foi a primeira Capital do País a estabelecer ações como a quarentena para eliminar possibilidades de crescimento do vírus. O resultado vem sendo positivo, números estagnados de crescimento do coronavírus, comprovam que a medida adotada pelo prefeito está sendo efetiva no combate a proliferação.  

Filho do vereador e ex-deputado federal Antônio Cruz, o médico Antonio Cruz Neto desceu ao lodo raso das baixarias em um vídeo no Instagram, no qual agride Marquinhos Trad e a mãe do prefeito com palavras de baixo calão. Ele gravou o vídeo quando tentava chegar de carro em sua casa, no centro da cidade, e deparou-se com uma carreata de empresários de protestos e de pressão ao prefeito por causa de medidas da Prefeitura, entre as quais a paralisação parcial das atividades comerciais durante a crise da saúde.

O médico Antonio Cruz Neto.  Foto: Reprodução/Redes Sociais

Irritado e estressado, segundo disse depois num segundo vídeo em que simulou um pedido de desculpas, Cruz Neto disse que como dono de três empresas – entre as quais o consultório de clínico-geral na Avenida Afonso Pena, área nobre da região central – e gerador de empregos se revoltou com a situação. “Sou empresáro, né? Tenho empresas e vários funcionários, tá? Dai você vê um prefeito babaca, que não entende, mas que dá pro povo? Pô, a gente dá emprego, velho, a gente paga os caras meu Deus do céu! Tá? (...) esse filho da *** Marquinhos Trad...”, disse Neto.  

No segundo vídeo, à guisa de pedir desculpas, o médico falastrão apenas reconhece: “Não deveria ter falado o que falei num momento acalorado”. Contudo, esmera-se na arrogância e na auto-afirmação de méritos, conservando a mesma postura demonstrada no vídeo anterior em que desmerece o esforço do poder público na luta pelas vidas ameaçadas: “Esse aqui é um vídeo que estou fazendo, um pouco por causa da polêmica que gerou alguns storys meus que acabaram apagados. Sou médico há quase 14 anos, tenho três empresas, sou responsável pela administração do Hospital Evangélico, tenho meu trabalho e faço muito pela saúde de Campo grande, atendo muitas e muitas pessoas. O vídeo em questão é de retratação pelas coisas que falei, embora não concorde em absolutamente nada com, as atitudes do prefeito”, completou. 

NO LIXO

Se um clínico-geral, que é co-administrador do Hospital Evangélico – ao lado do pai e de outro irmão, Augusto Cruz, ambos também médicos – jogam no lixo o conceito hipocrático aplicado na Ciência da Medicina como condição de labor humanista, atitude diferenciada não se poderia esperar de uma ativista de direita. E da direita mais atrasada e ignorante que se conhece neste País. Ela, Juliana Gaioso, criou seu próprio contexto de enquadramento depreciativo pinçando trechos de entrevistas e discursos do prefeito para demonizá-lo com sarcasmo e petulância.

Difícil saber se a postagem de Juliana foi ordenada ou autorizada pela senadora. Mas não há dúvida alguma que Soraya Thronicke, uma advogada, concordou e poderia ter amado o teor ofensivo empregado por sua fiel colaboradora. Afinal, ofender é uma característica  de identificação do núcleo mais atrasado e virulento do bolsonarismo e da corrente conhecida no País como "direita terraplanista", –  acreditam que a terra tem um fim [reta], e que quando se chega na 'quina' da planitude, existe um buraco que dará em lugar algum, que a imaginação desses podem levar para sustentar o ridiculismo desse pensamento, retrógrado e de eras estranhas ao século vinte e um]. Sob o título “Marquinhos Trad aluno da Escola Dilma de Economia”, a direitista, assessora, serelepe escreveu” “Segundo o prefeito de Campo Grande Marquinhos Trad é só a casa da Moeda imprimir dinheiro. Com essa até a Dilma Roussef ficou com vergonha. Parece que o Marquinhos não sabe o que é inflação”, opinou a assessora de Thronicke.  

Não aparece na postagem uma única frase sobre a preocupação – se é que existe – de Juliana ou da senadora com a sorte das centenas de milhares de campo-grandenses que estão ou podem ficar expostos ao contágio pelo coronavírus se o poder público municipal afrouxar as medidas de retenção do fluxo de pessoas e abrir a guarda para a retomada das atividades da economia, como desejam os bolsonaristas com a defesa do isolamento vertical – ou seja, isolar só os grupos de risco (idosos e diabéticos, por exemplo) e liberar para o trabalho o restante da população.

OPORTUNISMO

O trio do mastodontismo em loja de louça foi completado no final de semana pelo engenheiro Marcelo Miglioli, ex-secretário estadual de Infraestrutura e ex-candidato ao Senado pelo PSDB. Agora no Solidariedade e auto-lançado pré-candidato à Prefeitura, Miglioli trafega com frenesi pelas redes sociais, a bordo de vídeos que ele mesmo produz na tentativa de afirmar-se como contraponto de Marquinhos Trad. Na ilusão de que vai polarizar a disputa, Miglioli não perde uma oportunidade para invadir a cena e chamar a atenção.

No sábado, ele se auto-promove num vídeo em que se apresenta como homem sensato e de boa índole, pondo Marquinhos no lado oposto. Miglioli, “o bom”, faz estas afirmações sobre “o mau” Marquinhos: “Nesse momento de sacrifícios generalizados, o prefeito precisa ter equilíbrio e somar com a sociedade. Marcos Trad está passando do limite, desrespeitando lideranças e aproveitando as lives da crise para falar batatinhas, agredir lideranças e pessoas de bem, ironizando e criminalizando empresários que reivindicam abertura das lojas, eles que geram empregos e pagam impostos”

Miglioli continua em sua elucubração: “Agora, de forma maldosa e grosseira, [Marquinhos] faz insinuações ofensivas aos líderes religiosos por conta da abertura das igrejas. Abrir ou não abrir é uma decisão que deveria ser técnica, baseada na opinião dos profissionais da saúde, principalmente da infectologia. Não podemos aceitar que no período de sacrifícios e estresse, o sr Marcos Trad destrate pessoas, transformando um período de crise em palanque eleitoral. Essas atitudes mostram a sua arrogância e seu oportunismo. Respeito é bom”! Parecia que Miglioli falava de si próprio ao contemplar o vídeo que gravou e ouvir suas próprias palavras.

SEM VOTOS

Pré-candidato à Prefeitura Municipal de Campo Grande, ex-secretário de Infraestrutura do primeiro mandato de Reinaldo Azambuja (PSDB) como governador e ex-candidato ao Senado Federal, Marcelo Miglioli. Foto: Valdenir Rezende/Correio do Estado

Em 2018, com total apoio do governador tucano Reinaldo Azambuja – que arrastou para o seu palanque de candidato ao Senado toda a base política e parlamentar de sustentação do governo -, inclusive liberando o caixa para atrair prefeitos e vereadores, Miglioli não conseguiu seduzir o eleitorado e ficou longe da cadeira de senador. Desiludiu-se. Ficou magoadnho, atribuindo sua derrota ao que considerou falta de empenho do governador, do partido, dos aliados e até dos eleitores.

O engenheiro ficou mais ressentido ainda quando, por critério de competência e lealdade, Azambuja não o chamou para continuar na Secretaria em seu segundo mandato. Miglioli então deu as costas ao eleitores e ao Estado, cuspiu no prato em que comeu e bebeu – e foi embora de Mato Grosso do Sul. De mala e cuia. Meses depois, sem encontrar espaço para bater asas em outro estado, retornou empavonado, cantando autoridade para ser pré-candidato a prefeito, acreditando manter cativos consigo os votos que recebeu em 2018 por obra e graça do empenho pessoal de Reinaldo Azambuja.

Mesmo sabendo que não tem cacife eleitoral e que os votos sufragados em seu nome são do governador, abafado pela sombra obscura de quem patina no traço das pesquisas de intenção de voto, Miglioli usa a única arma que tem para aparecer: a desconstrução alheia. E não se importa com os meios – os fins justificam os lances de oportunismo como este, no qual se aproveita de uma conjuntura popular de angústia, perplexidade e pânico para lançar sujeira e dúvidas no esforço de um Município que faz de tudo para livrar-se do pior. E não se sabe se o pior é o vírus desconhecido que nasceu de um morcego ou o que habita a mente e o coração de um homem público que não se preocupa em contaminar o próprio ambiente em que vive.