22 de maio de 2024
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EXTREMA DIREITA

O 'jeitão do presidente' estimula o ódio

Medo da derrota levará eleitores de extrema-direita a iniciarem ataques físicos contra seus adversários?

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Pré-candidato à reeleição, Jair Bolsonaro, do PL, para seus eleitores em Mato Grosso do Sul, tem “um jeitão firme”, mas no fundo é “pessoa boa”. No estado, o político lidera a preferência eleitoral, apesar disso, essa não é sua realidade na maioria dos estados brasileiros.  

A figura mais influente nesse momento na república, as vezes ao deixar o Palácio da Alvorada (Brasília), fala com apoiadores em um cercadinho, espécie de chiqueirinho, montado na saída do prédio.

Nesta segunda-feira, 11 de julho de 2022, Bolsonaro parou no cercadinho. Na ocasião, incitou apoiadores contra Lula (PT) e ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), chamando o atual presidente da corte, Edson Fachin, de "ditador". 

Bolsonaro também comemorou aumento de 474% no número de armas no país desde que assumiu o mandato – são mais de 673 mil registros atualmente, ante 117,5 mil em 2018.

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Com os apoiadores, o 'jeitão de Bolsonaro' é do: “eu falo e vocês escutam!” – ele não aceita muitas perguntas e nem que, porventura, seja interrompido. Apesar de ser político, Bolsonaro já disse irritado à um apoiador no cercadinho: “Não temos que discutir esse assunto aqui, você entendeu o recado? Venho pra conversar com a população, não venho pra tratar de política aqui, nem de questões nacionais, tá certo?”, respondeu em 31 de março deste ano. 

Uma vez, para se esquivar de pergunta de um jornalista, Bolsonaro pediu: "Vamos rezar um pai nosso?".

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A reação de Jair Bolsonaro ao assassinato político do líder petista em Foz do Iguaçu (PR) Marcelo Arruda, covardemente morto por um bolsonarista, mostra, entretanto, covardia e falta de caráter de Bolsonaro. Ele não só tem um “jeitão firme” – trata-se de uma pessoa má mesmo. Um político que coloca acima de tudo não Deus, mas sim sua sanha por poder.

Bolsonaro levou 24 horas para comentar o assassinato cometido por seu apoiador. Num post nas redes sociais, ele não lamentou pela família de Arruda, não lembrou que 4 crianças e uma esposa acabaram de ficar órfãs pelo extremismo político. Bolsonaro, na verdade, usou o post com dois objetivos: fingir que não tem relação com o crime e posar de vítima.

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Foi na noite de domingo (10.jul.22) que Bolsonaro publicou a mensagem no twitter, reproduzindo uma mensagem postada por ele mesmo há 4 anos, que se inicia: “Dispensamos qualquer tipo de apoio de quem pratica violência contra opositores”.

Bolsonaro poderia ter usado o post para pedir que seus apoiadores não cometessem atos de violência contra brasileiros que não apoiam os ideais radicais da extrema-direita, mas o presidente não o fez. 

O assassinato cometido pelo agente penitenciário bolsonarista  Jorge José Guaranho é resultado do discurso de ódio e da postura violenta adotada pelo ex-capitão que há décadas pratica e estimula em seus seguidores a desordem e a atos de violência. Vale lembrar que quando militar, Bolsonaro chegou a cometer atos de violência até mesmo contra seus pares no quartel.  Isso aconteceu em 1988, com o planejamento de atentados a bomba no Rio de Janeiro.

Não é preciso fazer grande esforço para recordar que houve diversos ataques mascarados de “opinião” feitos por Bolsonaro que colocaram em xeque os direitos e a vida das mulheres, das pessoas negras, pessoas LGBTQIA+, indígenas, trabalhadores rurais. “Você não merece ser estuprada”, “o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas”, “ter filho gay é falta de porrada”, “Invadiu, é chumbo” são algumas das frases já mencionadas pelo presidente da República.

Bolsonaro já afirmou que “o erro ditadura foi torturar e não matar”. Disse que seu desejo era “fuzilar a petralhada” – se referindo a eleitores da esquerda – isso foi durante a campanha eleitoral de 2018. Ainda, Bolsonaro cometeu ao menos três agressões físicas contra mulheres.

O estímulo à violência prosseguiu durante o mandato presidencial. Na gestão de Bolsonaro, em apenas três anos, o número de novas armas de caça registradas por ano quase quadruplicou, ao mesmo tempo em que aumentaram espantosamente também os clubes de tiros.

Além disso, levantamento feito pela organização não-governamental Safernet, que defende direitos humanos na internet, mostrou que em maio de 2020 foram criadas 204 novas páginas de conteúdo neonazista. Um aumento de mais de 628% comparado a 2018, quando foram criadas 28 novas páginas com esse tipo de conteúdo.

A última edição do Barômetro de Alerta da Coalizão Solidariedade Brasil, composta por 18 entidades internacionais, publicada em 2021, analisou o cenário relacionado aos direitos humanos nos anos de 2019 e 2020, com dados do próprio governo federal e de organizações da sociedade civil.

O resultado é dramático: aumento do número de mortes de pessoas negras pela força policial, aumento de casos de violência contra as mulheres (principalmente as negras), aumento do número de assassinatos de pessoas LGBTQI +, entre outras tristes estatísticas.

Além disso, Bolsonaro a todo momento sugere que seus apoiadores estejam prontos para atacar as instituições (como ao colocar parte da população contra o STF no 7 de setembro), e os adversários políticos.

Na última quinta-feira (7), durante live na internet, fez uma declaração que, claramente, não busca apaziguar o processo eleitoral: “Você sabe o que está em jogo, você sabe como deve se preparar. Não para um novo Capitólio, ninguém quer invadir nada. Nós sabemos o que temos que fazer antes das eleições”.

Isso é, Bolsonaro que foi eleito por 46 anos via urna eletrônica, agora subitamente decidiu que não confia mais nas urnas. O político de extrema-direita diz não confiar nas pesquisas eleitorais, mas até as pesquisas internas de seu partido, revelam que ele não tem chance de derrotar o ex-presidente Lula.

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O que mais assusta Bolsonaro e seus aliados não é a derrota nas urnas e sim o fato de que após deixar o cargo ele terá que enfrentar a Justiça sem as blindagens da gravata de chefe do executivo.

Bolsonaro aumenta seus ataques à Justiça, porque sabe que deve ser julgado pela das dezenas de crimes aos quais tenta dizer que não cometeu, mas ao contrário de apenas falar, fora do cargo de presidente, terá que provar que é inocente. E não vão adiantar ameaças!