25 de setembro de 2020
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Produtora rural critica governo petista e afirma que bancada ruralista de MS é uma farsa

A professora de filosofia e produtora rural Ana Nogueira, 28, aproveitou o Grito do Produtor, evento reuniu cerca de 70 produtores rurais hoje na praça do Rádio no centro de Campo Grande, para fazer uma crítica ao governo petista e também à bancada federal de Mato Grosso do Sul.

"Não há vontade política do PT (Partido dos Trabalhadores) em diminuir o conflito, ao contrário, eles querem a invasão, pois uma vez que a terra é invadida eles falam que é indígena e portanto passa a ser da União. O PT incita a invasão para evitar ter que pagar indenização aos produtores rurais. Assim a terra que eles dão aos índios sai de graça", analisa Ana.

A professora é de Miranda - distante 203 km de Campo Grande- e vive em uma propriedade rural da família, que, segundo ela, foram ocupadas três vezes e a última reintegração de posse ocorreu em 2009. Depois disso, a família optou por contratar três seguranças particulares autorizados pela PF (Polícia Federal) para fazer a segurança da propriedade. "Vivemos em cárcere privado. Eu deixei o mestrado no Rio para poder vir para Miranda e cuidar da fazenda", relembra Ana.

Além do PT, que tem sido alvo constante de críticas dos produtores rurais do Estado, Ana denuncia a bancada ruralista sul-mato-grossense que ela considera uma farsa. "A bancada ruralista é uma farsa que engana o produtor rural. Essa bancada não decide de que lado está", afirma.

Titulação das terras aos índios

Outro ponto defendido pelos produtores rurais que participaram do Grito do Produtor hoje à tarde é a titulação das terras indígenas em nome dos índios e não da União, permitindo que as propriedades se tornem de caráter privado e sejam registradas em nome dos índios ao contrário do que ocorre hoje em que as terras, na verdade, são de propriedade da União que permite o usufruto dos índios quando os mesmos passam a viver nas reservas indígenas.

Ana explica que os produtores rurais de Mato Grosso do Sul defendem que a única forma real de acabar com o conflito é a compra das terras por parte da União e o repasse delas aos índios, garantindo o direito de propriedade privada. "Isso só mostra nossa boa fé, a terra deve ser do índio e não da União", afirma. A ideia tem se fortalecido não só entre os produtores, mas também entre os índios. Abraão Nitelo, 65, vive na aldeia Passarinho, próxima à Capital, há 45 anos e afirma que garantir aos índios o direito de propriedade privada é a opção mais adequada. "Eu acho isso bom, pois a Funai não represente o índio e nós saberíamos cuidar bem da terra como sempre cuidamos."

Abraão conta que o fato da terra indígena não ser considerada uma propriedade privada tem impedido o desenvolvimento das aldeias e da população indígena em geral. "Eu mesmo já tentei empréstimos na Caixa Econômica Federal para aumentar minha lavoura e melhorar, mas não consegui porque a terra é da União e tenho que ter autorização da União e de todos que vivem na aldeia para poder fazer o empréstimo para minha lavoura", explica.

Outra crítica feita por Abraão é em relação a diferença de tratamento dada pelo governo federal aos índios e os sem-terra. "Veja bem, um sem-terra pode ocupar 12 hectares de terra e nós índios não. Na minha aldeia, somos 1100 índios vivendo em 119 hectares". Dividindo o número de hectares por índio, cada um teria menos de um hectare.

Heloísa Lazarini