27 de outubro de 2020
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NA PANDEMIA DO VÍRUS

Sob pressão até da vice, prefeito revoga parcialmente decreto contra servidores

Odilon Ribeiro cortou metade dos ganhos de professores e suspendeu cerca de 300 contratos

A decisão do prefeito aquidauanense Odilon Ribeiro (PSDB) de anular cerca de 300 contratos e suspender por 15 dias os pagamentos dos professores contratados durou menos de 48 horas. Um dia após baixar o decreto 37, de 18/03/2020, sob forte pressão da sociedade e dos próprios aliados, o tucano recuou e revogou parcialmente a medida.

Excluiu dela os professores, mas não livrou os demais servidores atingidos, que ficarão sem receber em plena situação de calamidade publica com a pandemia do coronavírus.

Uma das principais vozes da base aliada que se levantaram contra a atitude de Odilon Ribeiro foi a da vice-prefeita Selma Suleiman (MDB).

Em uma postagem no Facebook ela expressou a sua indignação: “Um absurdo certas atitudes que tomam sem consultar a gente. E depois
temos que apagar incêndios. É pra acabar, se nessa hora que teria que chegar a solidariedade”.     

Coincidência ou não, poucas horas depois dessa publicação o prefeito anunciava a suspensão do decreto, razão pela qual muitos
creditam o recuo de Odilon ao protesto da população e sobretudo às críticas da vice-prefeita. Selma tratou também de ajustar-se politicamente ao novo cenário, criado com a revogação da medida responsabilizando “alguns gestores” e agradecendo ao prefeito. Ela
postou esse texto nas redes sociais: “Que bom...foi tudo resolvido...acho que agora podemos acalmar os ânimos. Obrigada, prefeito Odilon, por rever a situação que alguns gestores causaram sem pensar no coletivo”.      

Ao classificar de absurdas “certas atitudes que tomam sem consultar a gente”, Selma teria criticado também, sem citar nomes, o
secretário de Governo Wezer Lucarelli, considerado o grande mentor político do prefeito. Dois dias antes Lucarelli havia renunciado ao
mandato de vereador, alegando ser uma opção para dedicar-se melhor à comunidade por causa da pandemia.       

O argumento de Wezer Lucarelli não convenceu e suscitou as mais variadas leituras, desde arranjos políticos a deslizes
administrativos. Ele tomou posse do mandato em 2017, mas logo após pediu afastamento da Câmara Municipal para ser nomeado titular da Gerência de Governo, depois transformada em secretaria por Odilon Ribeiro. Com a secretaria, o poder e a influência de Wezer aumentaram, o que justifica a suspeita de que tenha sido ele o indutor dos equívocos cometidos pelo prefeito

NA CONTRAMÃO

Enquanto a grande maioria dos prefeitos demonstram na prática a sensibilidade humana em decisões e
comportamentos para garantir meios efetivos de resistência e de sobrevivência ao povo, o prefeito de Aquidauana entrou na contramão da mobilização de solidariedade e cooperação com as massas trabalhadoras.     

É o que se deduz do artigo 5º do malfadado decreto, que determina: “Em decorrência da paralisação das aulas da Rede Municipal
de Ensino e dos Centros de Educação Infantil, bem como das atividades dos projetos desenvolvidos pela Secretaria Municipal de Turismo e Fundação de Esportes, os contratos temporários de prestação de serviços dos profissionais vinculados às aludidas áreas terão seus efeitos suspensos no período de 18 de março a 1º de abril de 2020”.    

Em sua defesa, o prefeito alega ter recebido orientação da sua assessoria jurídica para que adotasse medidas de contenção de gastos “para priorizar as ações de saúde e atendimento à população”. No entanto, ele não se manifestou sobre o inchaço de uma folha onerada
pela contratação de mais de três mil pessoas para cargos em comissão, numa cidade com pouco mais de 40 mil habitantes. Os cargos em comissão geralmente são utilizados para abrigar nomeações políticas ou com fins
eleitorais.

REAÇÕES

Os aquidauanenses que se revoltaram com o decreto de Odilon foram incisivos em seus reparos.  O vereador Moacir Pereira
(PSD) disse que o prefeito só voltou atrás porque não suportou a pressão. “Ele está perdido e não sabe o que está fazendo”. Outro
vereador, Edinho Grance, aponta a grave situação causada pela crise com o Covid19: “O povo já está todo preocupado com o Corona. O que fariam essas pessoas sem o emprego, sem seu salário, enquanto alguns
privilegiados recebem até gratificação? É preciso ter sensibilidade e priorizar a vida e o bem-estar do povo”.

A médica e ex-secretária de Saúde do Município, Viviane Orro, é também enfática: “Vivemos uma das maiores crises social, econômica e de saúde pública no mundo. Não é hora de cortar pela metade o salário de funcionários contratados que precisam do salário para pagar as contas no final do mês”, pontuou. Assinalou ainda ter ficado mais indignada quando leu no Diário Oficial atos de nomeações e aumento de gratificação em troca de apoio eleitoral. “Neste tempo de grave crise, está faltando sensibilidade e solidariedade. Triste! Que Deus possa entrar dentro dos corações!”