15 de abril de 2021
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Serasa aponta recorde na falta de pagamento de água e luz em dezembro

Inadimplência no pagamento de serviços básicos foi de 23,6%, maior valor de toda a série histórica iniciada em 2018

A inadimplência no pagamento de serviços básicos, como água e luz, bateu recorde em dezembro. Segundo a Serasa, o percentual foi de 23,6%, maior valor de toda a série histórica iniciada em janeiro de 2018. O número representa um aumento de 0,8 ponto percentual em um mês.

Calotes nessas contas cresceram mês a mês desde o início da pandemia, em março, quando começaram as medidas de restrição para conter a transmissão do vírus. De lá para cá, o índice cresceu 2,1 pontos percentuais.

Especialistas atribuem a alta à suspensão dos cortes desses serviços por falta de pagamento, medida adotada durante a pandemia de Covid-19 para evitar uma deterioração da situação das famílias, cujas finanças foram impactadas pela disseminação do vírus e pelas restrições à circulação promovidas para contê-lo. A Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), por exemplo, proibiu o corte do fornecimento de energia elétrica para consumidores de baixa renda inadimplentes até 31 de dezembro do ano passado. Para os demais, a determinação valeu entre março e agosto. No fornecimento de água, alguns estados e municípios proibiram cortes e flexibilizaram regras para quem não conseguiu honrar os compromissos.

Marcelo Neri é economista, diretor da FGV Social, e diz acreditar que essa pode ser uma decisão racional do consumidor. "Pode ser uma forma de se financiar na pandemia, ter recursos em momento de incerteza. Se a pessoa perdeu renda e sabe que não terá o serviço cortado, ela pode optar por pagar outra conta", afirma.

Para o pesquisador, antevendo o fim do auxílio emergencial, muitos podem ter guardado recursos, o que pode explicar a alta da inadimplência nas contas básicas no mês. "Além disso, dezembro não foi um mês tão gordo quanto costuma ser porque o 13º salário dos aposentados foi antecipado", diz.

Segundo Neri, essas contas comprometem mais a renda dos mais pobres. "Os valores são mais importantes para quem ganha menos. A expectativa é de crescimento da pobreza com o fim do auxílio, o que deve piorar a situação", diz Neri.

Em setembro, a parcela do benefício pago pelo governo aos mais pobres foi reduzida de R$ 600 para R$ 300. Em dezembro, o governo encerrou os pagamentos.

O professor de economia da UnB (Universidade de Brasília), Roberto Piscitelli, também avalia que a suspensão dos cortes impactou a redução da inadimplência. "Nessas contas, a inadimplência é mais tolerável, com juros baixos e mesmo antes da pandemia havia um prazo para a interrupção dos serviços, não era imediato", avalia.

Normalmente, o prazo para o corte do serviço por falta de pagamento é de 90 dias (3 meses).
Outro fator que contribuiu com o aumento da inadimplência é a alta dos preços dos alimentos e combustíveis nos últimos meses.

"A gasolina pressionou muito o orçamento, especialmente da classe média, no fim do ano passado e no início de 2021. Alimentos pesam mais na baixa renda", aponta. Além disso, o mercado de trabalho ainda sofre com os impactos da crise. "Recuperou-se pouco da renda do trabalho. É uma situação crítica", diz Neri.

Embora os calotes nas contas básicas tenham crescido, a inadimplência geral (considerando produtos financeiros e de crédito) diminuiu na pandemia. A falta de pagamentos com empréstimos e cartão de crédito, por exemplo, diminuiu 0,5 ponto entre novembro e dezembro e ficou em 27,3%, menor valor da série. A queda pode ser explicada pelo auxílio emergencial e pelo freio no consumo –aqueles que não perderam renda gastaram menos tanto pelas incertezas quanto pelas restrições de mobilidade e guardaram recursos, o que também contribuiu para a diminuição dos calotes. Outros também aproveitaram para colocar as contas em dia.

Além disso, os bancos prorrogaram parcelas de empréstimos, o que evitou que muitos clientes ficassem com o nome sujo. "O auxílio emergencial promoveu uma espécie de saneamento nas contas dos brasileiros. As taxas de juros também caíram e o crédito ficou mais barato", diz Piscitelli.

Em dezembro, segundo dados da Serasa, 61,4 milhões de pessoas estavam com o nome sujo, 3,4 milhões a menos que em março, quando o coronavírus chegou ao país. Apesar da queda, isso significa que quase 30% de toda a população brasileira tem dívida em atraso.