24 de julho de 2021
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VIOLÊNCIA POLICIAL | BONITO (MS)

Troca de mensagens com PM indicam que Capitão sabia do vídeo da agressão à mãe de criança autista

Quase um semestre depois de agressões, 'prints' de trocas de mensagens mostram detalhes sobre o caso de violência policial que comoveu a população

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O Capitão Francisco Solano Espíndola, conhecido como ‘Capitão Solano’ da 1ª Companhia Independente de Polícia Militar em Bonito (MS), pode ter ficado sabendo das agressões cometidas pelo segundo-tenente André Luiz Leonel Andrea, comandante do 3º Pelotão em Bodoquena. Troca de mensagens entre ele e um dos militares revelam que dois dias após a agressão o Capitão teria ordenado que se verificasse se haviam mesmo apagado o vídeo do servidor de câmeras de segurança do Quartel da PM em Bonito.  

A tentativa era ocultar as imagens que levaram ao afastamento do 2º-tenente, hoje investigado por agredir uma mulher de 44 anos, mãe de uma criança autista, algemada num restaurante em Bonito, que levada ao Quartel, foi golpeada a socos e chutes em 26 de setembro de 2020. O caso, porém, só veio à tona ao ser denunciado em 21 de novembro de 2020 aqui no MS Notícias. 

Neste dia 27 de maio de 2021, quase um semestre depois, capturas de tela a que a reportagem teve acesso mostram detalhes sobre conversas de Solano e um PM subordinado.

Na manhã de segunda-feira (28.set.20), o Capitão teria cobrado um dos PMs subordinados para que verificasse se as imagens da câmera de vídeo do quartel foram mesmo apagadas. “Vai lá no Maycon da M2 e fala que eu quero falar com ele aqui... O coronel mal assumiu e já tem esse B.O para resolver. Ele quer ter certeza que esse vídeo da QBU foi deletado”, iniciou. O Capitão estava se referindo ao Tenente Coronel, Anderson Luiz Alves Avelar, que assumiu o comando da 1ª Companhia em 16 de setembro, dez dias antes da mulher ser agredida por Leonel. Tanto o Capitão como Avelar dizem que ficaram sabendo da situação por meio da imprensa.  

Seguindo a troca de mensagens, o PM subordinado respondeu ao Capitão: “(sic) Então, o 06 disse que chamou o técnico pra mexer, só não sabe se apagou mesmo, é melhor falar com o dono da coisa mesmo”. 

Antes de seguir, vamos decifrar os códigos usados na conversa: Maycon da M2 é o empresário de 37 anos, da empresa responsável por circuitos de monitoramentos em vários locais de Bonito. QBU, no jargão policial, significa “doida”. 06 significa tenente e 07 significa Capitão. Cia – significa Companhia de Polícia.  E ‘cod’ significa ‘almoço’. 

O PM então obedeceu ao Capitão e às 8h21 seguiu até a empresa de Maycon, mas não o encontrou lá. Quando voltou, às 9h02 avisou. “(sic) 07 o Maycon não estava na loja, mas deixei o recado para ele ir na Cia, assim que possível, ainda hj, a menina passou esse número 99690****, disse que é dele, se o senhor quiser ligar direto, talvez, melhor”. O Capitão, então, respondeu. “(sic) Ok, mas antes do cod, passa lá denovo”, orientou.

Supostas mensagens trocadas entre o Capitão e um militar subordinado. Foto: DR | MS NotíciasSupostas mensagens trocadas entre o Capitão e um militar subordinado. Foto: DR | MS Notícias

Depois dessa conversa, o caso tem um hiato de quase dois meses de silêncio. Na Companhia ninguém falava sobre a situação de agressão cometida por Leonel. No revés, a PM confeccionou um Boletim de Ocorrência em que acusava a mulher agredida de desacato. Rapidamente o Ministério Público, em 18 de novembro de 2020, ofereceu denúncia colocando a vítima como ré. A situação só não continuou porque em 21 de novembro de 2020 o MS Notícias teve acesso ao teor do vídeo e ao boletim de ocorrência e trouxe a público a situação.   

Depois disso, o caso tomou grandes proporções e levou a uma devassa no Quartel de Bonito. Além de Leonel, que foi afastado e transferido para Capital em 23 de novembro, acusado da agressão, outros 5 PMs foram acusados de prevaricação (por não comunicar o crime ao Comando e por não prender o Tenente pelas agressões). 

O policial que conversava com o Capitão Solano em 28 de setembro de 2020 é um dos 6 PMS que está sendo processado por prevaricação. Apesar disso, Solano não é investigado por nada e ainda foi promovido, tornou-se oficial-destacado por Avelar para responder por Bodoquena, cidade em que Leonel atuava. 

Algumas sindicâncias foram abertas no quartel, finalizadas e encaminhadas à Corregedoria de Polícia Militar, conforme explicou o Comandante.   

MUDANÇA DE TESTEMUNHO

Depois de ter acesso a troca de mensagens, o MS Notícias ligou para o telefone que seria de Maycon. O empresário atendeu a reportagem e contou a sua versão dos fatos. “Foi o tenente [Leonel] quem me procurou primeiro, pedindo para eu ir até o quartel, pedindo até por favor, para levar um técnico para apagar umas imagens. Eu fui até lá e levei meu técnico. Ele sentou, abriu e ao ver a cena tomou um susto, desligou tudo e foi embora, deixando o vídeo ainda no servidor”, contou. Maycon explicou que está em uma situação difícil com a autoridade policial no município. “Aqui é uma cidade pequena, fica uma situação difícil com as autoridades policiais depois disso tudo... Eles me chamaram um dia lá eu fiquei com medo, disse na frente do Solano, que eu não tinha ido lá no dia da agressão, mas eles sabiam que eu tinha ido, porque foram eles quem me chamaram no dia para apagar”, lembrou.

Há aproximadamente 10 dias, Maycon realizou depoimento por meio de videoconferência à Corregedoria. Na ocasião, para as autoridades de investigação, disse que contou o que ocorreu de verdade. “Eu disse para eles, olha, eu vou falar a verdade. Eles nos chamaram lá para apagar as imagens, só que eu e meu técnico ficamos assim, ele não quis apagar, desligou tudo e saiu, tanto que as imagens ainda estão lá no servidor”, explicou o empresário. 

E foi justamente ao saber da mudança no depoimento de Maycon, que o denunciante desta reportagem decidiu trazer as novas evidências à público. “Tomei coragem também porque o dono da empresa mudou sua versão dos fatos no depoimento dele, disse a verdade que chamaram ele para apagar, mas ele disse para o técnico dele não apagar porque poderia dar problemas”, comentou. 

As evidências apresentadas aqui não estão ainda na Corregedoria, pois, o denunciante alega que não foi chamado para ser ouvido e ele reforça que os oficiais sabiam do ocorrido. “Os oficiais, eles já sabiam. Dias depois, o Capitão que é subcomandante me pediu para ir atrás do dono da empresa que cuida das câmeras. Tenho como provar, pois, ‘printei’ a conversa e hoje tive coragem porque sei que muitos colegas não vão saber quem sou, mas o Capitão vai porque ele me mandou. Posso ser punido, perseguido ou transferido como meus colegas foram, mas não vou deixar que eles mintam falando que não sabiam só porque são oficiais. Ele ainda apagou as conversas, mas já era, eu já tinha tirado print”, contou o policial.

AS PARTES

Na tarde de hoje, o MS Notícias procurou a Corregedoria Geral da PM para saber se o processo está perto de ser concluído, mas o atendente disse que as autoridades responsáveis só estão na parte da manhã no local.

O telefone do qual os prints foram tirados de fato pertence ao Capitão Solano. Procurado por nossa reportagem, ele negou que tenha trocado as mensagens com o policial. “(sic) Ho companheiro eu não troquei msg nenhuma, caso esteja sendo veiculado isso é o mais absurdo possível e descarado. O meu celular está à disposição caso alguém queira verificar”, disse.

“(sic) Eu só tomei conhecimento deste fato na mesma DT do Cmt da unidade, DT q saiu na imprensa, essa é a Única verdade. Ok”, rebateu.  “(sic) E se tem print é falso, e a vdde já está nas apurações”, finalizou.