08 de maio de 2021
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PANORAMA | CÚPULA DO CLIMA

Biden não acompanhou discurso e mentiras de Bolsonaro hoje (22.abr.2021)

Jair não cumprimentou presidente dos EUA e, por três minutos, mentiu sobre "vanguarda brasileira" no combate às mudanças climáticas

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Na manhã desta 5ª feira (22.abr.2021) houve a Cúpula do Clima, convocada pelo presidente norte-americano Joe Biden, com a presença 26 países, onde o chefe do executivo brasileiro, Jair Bolsonaro (sem partido) ficou irritado por ser um dos últimos a discursar no encontro.

Segundo informações do portal Brasil 247, Bolsonaro saiu da sala onde acompanhava os discursos quando os ministros de Bolsonaro avistaram a decisão da Casa Branca como o que seria (na opinião deles) uma "forma sútil" de "humilhar" o país. Foram mais de uma hora e meia de espera até a fala do mandatário brasileiro. 

Entretanto, Joe Biden nem sua vice Kamalla Harris acompanharam a fala de Jair Bolsonaro, que fez questão de não cumprimentar o presidente estadunidense, contrário aos padrões diplomáticos e de como fizeram os representantes demais países em discursos que antecederam o Brasil, como China, Índia, Rússia, França e Argentina. 

Segundo apurado pela agência de notícias Folhapress, o democrata pediu licença antes da fala do presidente argentino, Alberto Fernández, e não voltou a tempo de assistir à participação de Bolsonaro. 

MENTIRAIS PRESIDENCIAIS

Além de não anunciar as chamadas "NDCs" (Contribuição Nacionalmente Determinada, meta de descarbonização assumida no âmbito do Acordo de Paris), Jair Bolsonaro mentiu em sua fala, dizendo que o Brasil "está na vanguarda do enfrentamento do aquecimento global". 

Foram pouco mais de três minutos de discurso, onde ele repetiu as metas já assumidas pelo país, de cortar emissões em 37% até 2025 e em 43% até 2030, e o compromisso assumido em carta enviada a Biden, de reduzir o desmatamento ilegal no Brasil até 2030. 

Ele ainda apresentou compromissos como a eliminação do desmatamento ilegal até 2030 e, com isso, a redução de quase 50% nossas emissões até essa data. 

Diante de outros 25 países, o presidente do Brasil chegou a pedir "justa remuneração" por "serviços ambientais" prestados pelo País, seguindo a linha do que defende o ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente). 

"Diante da magnitude dos obstáculos, inclusive financeiros, é fundamental poder contar com a contribuição de países, empresas, entidades e pessoas dispostos a atuar de maneira imediata, real e construtiva na solução desses problemas", discursou.

Bolsonaro ainda defendeu a regulamentação de trechos que tratam do mercado de carbono no Acordo de Paris. "Os mercados de carbono são cruciais como fonte de recursos e investimentos para impulsionar a ação climática, tanto na área florestal quanto em outros relevantes setores da economia, como indústria, geração de energia e manejo de resíduos. Da mesma forma, é preciso haver justa remuneração pelos serviços ambientais prestados por nossos biomas ao planeta, como forma de reconhecer o caráter econômico das atividades de conservação", afirmou. 

Outras declarações mentirosas, como os vários ataques aos indígenas, em outros discursos - colocando neles a culpa pelas queimadas em florestas brasileiras -, e também o avanço do desmatamento da Amazônia mancharam a imagem de Jair com os demais países. 

Durante a reunião de hoje (22.abr) da Cúpula, Bolsonaro afirmou que é preciso aprimorar a governança e tornar realidade a bioeconomia, contemplando "interesses de todos os brasileiros, inclusive indígenas e comunidades tradicionais". Sobre a Amazônia, o presidente brasileiro disse que o Brasil tem orgulho de conservar 84% do bioma. 

De acordo com a apuração da agência Folhapress, Jair preparou o discurso em reuniões com Salles e os ministros Carlos França (Relações Exteriores), Tereza Cristina (Agricultura) e Fábio Faria (Comunicações). 
 
RESPOSTA AO DISCURSO 

O anúncio da duplicação dos recursos destinados para ações de fiscalização ambiental foi bem visto pelos americanos e, em um primeiro momento, dizem [os americanos] que a fala do brasileiro mostrou mudança de tom e, por isso, avaliam, é possível continuar com os diálogos, sendo que, mais dinheiro para órgãos de fiscalização era uma das medidas que os assessores de Biden considerariam "ações imediatas" para cumprir a meta de acabar com o desmatamento ilegal até 2030. 

Mas, no cenário internacioanl, o governo brasileiro precisa apresentar resultados convincentes na redução do desmatamento ainda em 2021. 

Oposição de Jair Bolsonaro, o ex-presidente Lula ressaltou nas redes sociais que o presidente "envergonha o Brasil, deixa legado trágico e ameaça o planeta". 

"Infelizmente, para nós e para o mundo, é bem diferente a situação em que nosso país se encontra hoje e a maneira como é visto. O Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia registrou em março novo recorde no desmatamento, de 216% a mais em relação a março de 2020”, disse Lula no Twitter. 

DADOS OFICIAIS

Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a área de alertas de desmatamento na Amazônia em março foi 12,6% maior do que a registrada no mesmo mês de 2020. 

Diante disso há temores no governo de que os próximos dados divulgados, de abril, não indiquem uma reversão de tendência. 

Negociadores americanos e europeus receberam diversos relatórios que expressam preocupação com a gestão de Salles, frente ao Meio Ambiente, como a carta de fiscais do Ibama e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade(ICMBio), em que os orgãos afirmam que "todo o processo de fiscalização e apuração de infrações ambientais encontra-se comprometido e paralisado" devido a um recente ato publicado pelo governo.

Abril de 2021 foi o mês que marcou o choque entre o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, com a Superintendência da Polícia Federal do Amazonas, sobre a maior apreensão de madeira na história do Brasil

Salles é peça-chave na corrida eleitoral de Bolsonaro em 2022, pelos apoios que recebe da bancada do boi e classe pecuarista. Em sinal da força do ministro, o então chefe da corporação no estado, Alexandre Saraiva, disse que pela primeira vez viu um ministro do Meio Ambiente manifestar-se contra uma ação que visa proteger a floresta amazônica. E emendou que na PF "não vai passar boiada", em referência à célebre frase dita por Salles no ano passado.

Logo após, Alexandre Saraiva foi removido do cargo.