25 de setembro de 2021
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'ButanVac'

Butantan pede à Anvisa início de testes de sua vacina contra Covid-19

Diretor do instituto garante que imunizante estará disponível ainda em 2021, permitindo vacinação já no mês de julho

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Além de oferecer no país o imunizante de origem chinesa (Coronavac), nesta 6ª feira (26.mar.2021), o Instituto Butantan pedirá à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) uma autorização para ensaios clínicos com seres humanos com sua nova candidata à vacina contra Covid-19, segundo informações da Folhapress. 

Através das redes sociais, o Instituto anunciou a criação da ButanVac, que será produzida na fábrica que hoje faz uma vacina contra o Influenza. A previsão, segundo o Butantan, é que a produção comece ainda este ano e que o imunizante já seja disponibilizado em 2021. 

Dimas Covas, diretor do Butantan, diz ser possível encerrar todos os testes da vacina e ter 40 milhões de doses prontas antes do fim do ano. Informações apontam que, pelo menos, outros sete estudos com imunizantes estão sendo feitos no país, mas todos ainda se encontram na fase anterior ao ensaio clínico solicitado à Anvisa. 

Durante coletiva na manhã de hoje (26.mar) Covas afirmou que os testes com a ButanVac podem ser encurtados, contando com uma comparação com outros imunizantes usados contra a doença que já foram estudados. Esse atalho permitiria iniciar a vacinação da população em julho. Mesmo os imunizantes desenvolvidos mais rapidamente contra a Covid-19, no mundo, demoraram menos de seis meses para completar suas fases 1 e 2. "Mas elas eram totalmente novas", pondera o diretor do instituto.

"É uma segunda geração de vacina contra a Covid-19, pode haver uma análise mais rápida", afirmou Dimas, que prevê que a próxima fase dos estudos comece em abril. Na entrevista desta 6ª feira, Covas afirmou que os gastos com os estudos clínicos seriam bancados pelo Butantan.

Até o momento, no mundo, a doença já tirou a vida de mais de 2 milhões e 76 mil pessoas, sendo 303 mil mortes no Brasil. Diante disso, no país, a imunização segue a passos lentos, com 8,7% da população adulta tendo recebido ao menos uma dose de alguma vacina e 2,8%, duas doses.

Governador paulista, João Doria (PSDB), que tem sido um grande promotor da Coronavac, comemorou a notícia, dizendo ser "um grande avanço da ciência brasileira a serviço da vida".  

Esse pedido de autorização é referente às fases 1 e 2 de testes da vacina, onde serão avaliadas segurança e capacidade de promover resposta imune com 1.800 voluntários. Na fase 3, com até 9.000 indivíduos, é estipulada sua eficácia. Esse novo imunizante será testado nos dois outros países que participam do consórcio, Vietnã e Tailândia, sendo que, neste último, a fase 1 já começou.

De acordo com o Butantan, a fabricação de 40 milhões de doses da ButanVac pode ter início no mês de maio, quando o instituto encerra a produção da vacina contra a gripe. As doses que devem ser usadas nos testes, caso sejam permitidos pela Anvisa, já estão prontas, afirma o instituto.

ENTENDA 

Essa tecnologia em questão usa o vírus inativado de uma gripe aviária, que é chamada "doença de Newcastle", como vetor para transportar para o corpo do paciente a proteína S (de spike, espícula) integral do Sars-CoV-2, responsável pela ligação entre o vírus e as células humanas. 

Ao ser inserida sozinha no corpo ela estimula a resposta imune. Segundo Covas, ela já utilizará a proteína da variante amazônica, a P.1, mais transmissível e possivelmente mais letal.

Caso esse fármaco funcione, outra vantagem prevista é a escala e a independência conquistadas. Como seu vetor é criado dentro de ovos embrionados, isso aumenta bastante a rapidez de sua produção, não sendo necessária a importação de nenhum insumo já que, hoje, tanto a Coronavac (Butantan) quanto a vacina de Oxford (Fiocruz) são formuladas e envasadas no Brasil, mas com insumos vindo da China. 

Já a partir do segundo semestre, o órgão paulista prevê a fabricação nacional da vacina. Dados técnicos mostram que na ButanVac, o vírus é inativado com produtos químicos e, como a doença de Newcastle não afeta humanos, é uma alternativa ainda mais segura do ponto de vista de efeitos colaterais.

A Coronavac teve seus estudos da fase 3 coordenados no Brasil, pelo Butantan. Esse imunizante usa do próprio Sars-CoV-2 inativado como um vetor, enquanto a vacina de Oxford/AstraZeneca, que também está sendo usada no Brasil, utiliza um adenovírus que é causador de gripe em macacos para inserir a proteína S.

Moderna e Pfizer fazem uso de tecnologias mais recentes, utilizando material genético (RNA mensageiro). Isso resulta em uma alta eficácia como vantagem, mas acaba tornando elas menos estáveis e não trazem a segurança que métodos usados há mais tempo conferem.

Todo ano, o Butantan produz 80 milhões de doses contra a gripe. "Após o final da campanha de produção da vacina contra influenza, que termina em maio, podemos iniciar imediatamente a produção da ButanVac. Atualmente, nossa fábrica envasa a da influenza e a Coronavac. Estamos em pleno vapor", aponta Dimas Covas. 

Segundo o diretor do Butantan, desenvolver a ButanVac não vai alterar o cronograma da Coronvac. Cerca de 27 milhões das 46 milhões de doses previstas até 30 de abril já foram entregues, sendo que o governo federal encomendou mais 54 milhões até setembro.

Vale ressaltar que as compras só aconteceram depois de uma intensa pressão política. João Doria acelerou a aposta na vacina e a ofereceu em outubro passado para o Programa Nacional de Imunização. Essa aquisição chegou a ser anunciada, pelo então ministro Eduardo Pazuello (Saúde), mas o próprio Jair Bolsonaro (Sem partido) o desautorizou na sequência, dizendo que não compraria o que chamou de "vacina chinesa".

Diante disso Doria anunciou seu programa próprio de vacinação em dezembro, o que forçou uma movimentação por parte do presidente, já que o agravamento da pandemia mostrou uma queda abrupta na popularidade de Bolsonaro. 

Depois de apoiadores do centrão pedirem a saída de Pazuello, Bolsonaro respondeu a um comentário feito por Lula e formou um comitê com o Legislativo e alguns governadores sobre a crise. Ainda na 3ª feira (23.mar.2021), o presidente emitiu mentiras durante pronunciamento em rede nacional de TV e Rádio.