06 de maro de 2021
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'TIRO NO PÉ'

Bolsonaristas tentam maquiar fracasso de manifesto em MS

Manifestação revelou o que a própria direita havia alertado: governo é frágil

Não se pode afirmar que a popularidade de Jair Bolsonaro (PSL) esteja tão baixa em Mato Grosso do Sul e muito menos supor que a credibilidade de seus defensores não tenha peso representativo. Porém, é preciso encontrar uma explicação convincente para o fracasso da manifestação pró-reformas e pró-Bolsonaro de domingo em Campo Grande. Eram esperadas – segundo previsão dos próprios organizadores – ao menos 30 mil pessoas . No entanto, de acordo com a média dos cálculos oficiais e extraoficiais, os manifestantes não foram além das 3,5 mil pessoas.

Além do PSL, partido do presidente, e das agremiações linkadas com a base governista, entidades civis e organizações classistas patronais fizeram às vezes de locomotivas para puxar o comboio bolsonarista. Uma dessas entidades, a Associação Comercial e Industrial de Campo Grande (ACICG) tentou envolver seus associados e convocou a população para reforçar a mobilização. Ao que parece, seus apelos não surtiram o efeito desejado, tendo em vista que nem mesmo boa parte dos associados compareceram.

A presença das estrelas partidárias do bolsonarismo foi outro fator opaco no contexto das forças que se empenharam para atrair gente para as ruas. A senadora Soraia Thronicke, os deputados federais Loester Trutis e Luiz Ovando e os deputados estaduais Capitão Contar e Coronel David, todos do PSL, passaram a semana anterior ocupando redes sociais e espaços na mídia fazendo convocações para a sociedade. Da mesma forma, o vereador Vinícius Siqueira (DEM) e outras lideranças que se engarupam na montaria presidencial se somaram ao esforço mobilizador.  

A discrepância dos números já dá, por si, uma ideia do insucesso matemático dos atos de domingo. A estimativa da organização que girava de 30 mil a 35 mil pessoas tomando conta da Avenida Afonso Pena foi recolhida para um cálculo no mínimo oito vezes menor. A Polícia Militar chegou a contar um número pouco superior a 1,5 mil pessoas. Sites de notícias, na média, projetaram de 2,5 mil a 3,5 mil. A Guarda Civil Municipal cravou mais de 2,5 mil, mas não se atreveu a citar que poderiam ser cerca de 3 mil.

A PM fez apenas um cálculo no início da manifestação, mas se recusou a entrar na ciranda ingrata dessa contabilidade no final. Até a assessora de imprensa do movimento, Tavane Ferraresi, não entrou na onda ufanista de manifestantes que falavam em 15 mil e até 20 mil pessoas. Ela citou um número em torno de 4 mil pessoas. A adesão de público, dessa forma, ficou muito distante do que vinham projetando os organizadores e também não serviu nem para ilustrar a proporção do desempenho eleitoral de Bolsonaro, que teve 55,06% dos votos no Estado e 71,27% em Campo Grande.

Personalidades que estiveram à frente da mobilização não reconheceram o fracasso e tentaram esconder a decepção com subterfúgios ou declarações genéricas ou evasivas. Foi o que fez, entre outros, o presidente da ACICG, João Carlos Polidoro. Para ele, as pessoas. “Se mobilizaram, responderam ao convite”. Disse isso, sem citar números e tampouco arriscou-se a pontuar sua avaliação com adjetivos que expressassem eventual grandiosidade do ato.

PAUTA ATRATIVA

Para a organização, a pauta de domingo era atrativa e suficiente para levar às ruas um contingente popular semelhante ou próximo àqueles que precederam o impeachment de Dilma Roussef ou o julgamento de Lula. Para ajustar o cenário, foram contratados três trios elétricos e distribuídos vários adereços e símbolos: uniformes em verde-amarelo, bandeiras nacionais, buzinas, apitos, bonecos, faixas e veículos decorados com fotos ou caricaturas de Bolsonaro, e dos ministros Sérgio Moro, de Justiça e Segurança Pública, e Paulo Guedes, da Economia. Os apelos temáticos se concentraram na reforma da Previdência proposta pelo Planalto, a manutenção do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) nas mãos de Moro (Ministério da Justiça), o pacote anticrime, a Operação Lava Toga – com muitos insultos e protestos dirigidos ao STF e à magistratura – e a reforma administrativa do governo.

O deputado Capitão Contar afirmou ter ficado satisfeito e feliz com o resultado. Ele escreveu a seguinte avaliação em seu perfil na rede social: ““Neste domingo, todo o Brasil foi às ruas e mostrou apoio ao governo do nosso presidente Jair Bolsonaro, principalmente Mato Grosso do Sul! Uma manifestação limpa e pacífica, em defesa ao Pacote Anticrime, pela Reforma da Previdência e pela Reforma Administrativa. Vesti a minha camisa e também fui para Avenida Afonso Pena com a minha família, em defesa de um Brasil melhor e afim de evitar que a 'velha política' permaneça no poder. Nós, sul-mato-grossenses acreditamos nos projetos propostos pelo nosso presidente Jair Messias Bolsonaro e vamos continuar lutando para que ele possa governar e implementar a mudança de verdade em nosso país, que tanto precisa! Estamos juntos nessa caminhada, obrigado a todos que compareceram, vamos manter a nossa força e nossa união. Lutar por futuro próspero e em nome da Ordem e do Progresso do nosso Brasil!”