21 de outubro de 2021
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ENTREVISTA | RÁDIO

Com carteirinha sob sigilo, Bolsonaro afirma: "Eu decidi não tomar mais a vacina"

Bolsonaro desmente a si mesmo sobre "não ter decretado sigilo sobre carteira de vacinação"

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Jair Bolsonaro em janeiro de 2021, por meio do Palácio do Planalto disse que sua carteirinha de vacinação estaria sob o sigilo legal de até cem anos, desse modo não é possível saber quais vacinas ele recebeu. Nesta terça (12.out.21) Bolsonaro disse  ao "Os Pingos nos Is", da rádio Jovem Pan, que não tomará mais vacina contra Covid-19, justificou a decisão pelo fato de já ter sido infectado pela doença e supostamente ter um alto nível de anticorpos. 

"Eu decidi não tomar mais a vacina. Eu estou vendo novos estudos, e minha imunização está lá em cima. Para que vou tomar? Seria a mesma coisa que você jogar R$ 10 na loteria para ganhar R$ 2. Não tem cabimento isso daí", disse o presidente. 

Segundo autoridades de Saúde, porém, mesmo quem já teve covid deve ser imunizado contra a doença. A Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), ligada à OMS, recomenda a vacinação dessas pessoas "independentemente de terem apresentado sintomas ou ficado muito doentes". A agência informa que a vacina reforça o sistema imunológico do corpo contra a covid, mesmo para aqueles que já possuam alguma imunidade, como diz Bolsonaro.

Em abril deste ano, o mandatário afirmou que pretendia tomar a vacina "por último", depois que todas as pessoas "apavoradas", como ele as classificou, recebessem suas doses. Bolsonaro está apto a ser imunizado no Distrito Federal desde o dia 3 de abril de 2021.

Bolsonaro tem atacado as vacinas contra covid-19 desde o início da pandemia. Ele se vendeu como curandeiro apresentando o "Kit Covid" ao brasileiros, que agora ele nega que tenha feito. Bolsonaro teve a doença em julho do ano passado, desde então fez promoção da hidroxicloroquina e medicamentos sem eficácia comprovada pela ciência. 

O gestor não demonstrou nenhum remorso quando alguém pediu a sua opinião sobre as mais de 600 mil vidas brasileiras tomadas pela Covid-19. Ele disse neste final de semana numa praia que não iria falar sobre isso porque não queria se chatear. 

A ocasião em que disse que estava a carteirinha sob sigilo ocorreu quando a Revista Crusoé em 31,jul.2021, por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), solicitou cópia dos comprovantes de quais vacinas Bolsonaro teria recebido. Bolsonaro numa live poucos dias depois disse que a imprensa estaria "mentindo".

Apesar disso, a Secretaria Especial de Comunicação Social disse que em 2011 foi sancionada a Lei n.º 12.527/2011 (Lei de Acesso à Informação), portanto muito anterior à gestão deste governo. "A referida lei impõe o prazo máximo de 100 anos para restrição de acesso a informações pessoais de qualquer cidadão brasileiro. Portanto, a forma como os veículos fizeram a divulgação do fato, em especial em suas manchetes, são enganosas, enviesadas e parecem tentar direcionar os leitores para conclusões erradas. Lastimavelmente, essa prática tem se tornado comum em muitos veículos de comunicação. A Secom esclarece que a lei prevê que o tratamento de informações pessoais deve ser feito de forma transparente e com respeito à intimidade, vida privada, honra e imagem das pessoas. A Secom informa, ainda, que o pedido de LAI se encontra em fase de análise pela Presidência da República, em grau de recurso", disse na ocasião. 

Em 20 de janeiro a juíza Adverci Abreu, da 20ª Vara Federal Cível do Distrito Federal, negou um pedido para derrubar o "sigilo de 100 anos" decretado no cartão de vacinação do presidente Jair Bolsonaro. A solicitação foi feita em ação movida pela presidente do Partido dos Trabalhadores, a deputada federal Gleisi Hoffmann (PR). A congressista alegou que as informações pessoais do presidente, incluindo sobre sua carteira de vacinação, "possuem notória relevância social e não podem ser acobertadas irregularmente pela decretação de sigilo” e deveriam ser apresentadas à sociedade.  

Já em 4 de agosto de 2021, Bolsonaro acabou assumindo que usou o sigilo, desmentindo a si mesmo. “O que diz a lei é que questões pessoais minhas podem ser de até 100 anos. O que pediram pra mim? Minha cartela de vacina, queriam ver minha cartela, item pessoal meu. Nós aqui temos direito por lei. Vou entregar minha carteira de vacina. Coisas pessoais minhas. Nós aqui temos sigilo por lei”, afirmou.

Jair Bolsonaro é o único líder político da história a desencorajar a vacinação, é o que afirma o historiador francês Laurent-Henri Vignaud, autor do livro Antivax - Resistência às vacinas do século 18 aos dias de hoje e professor da Universidade de Borgogne.