30 de novembro de 2021
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Derrotado por Dória, Bolsonaro reativa Gabinete do Ódio, diz UOL

No desespero, Bolsonaro decidiu então resgatar o antigo grupo extremista que o elegeu

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A diretoria da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), autorizou por unanimidade o uso emergencial da CoronaVac, representada no Brasil pelo Instituto Butantan, e da vacina de Oxford/AstraZenenca, da Fiocruz. O que talvez não fosse esperado foi o rápido movimento do governador João Doria (PSDB). Auspicioso, Dória promoveu grande derrota política a Jair Bolsonaro, que por sua vez reagiu, segundo fontes, sob orientação dos assessores que compõem o grupo, Bolsonaro voltou a fazer da saída do Palácio da Alvorada uma vitrine declaratória, criou um canal de divulgação de informações no Telegram e mirou em alvos como o jornalista William Bonner, o casal de apresentadores Luciano Huck e Angélica, e o youtuber Felipe Neto.

Tão logo a autorização anunciada, o governo de São Paulo, ao qual o Butantan é ligado, fez a primeira aplicação do imunizante, com Doria acompanhando in loco a vacinação da enfermeira Mônica Calazans, de 54 anos. Mônica foi uma das participantes dos testes da CoronaVac, mas tomou o placebo, não a vacina. A indígena e técnica de enfermagem Vanuzia Costa Santos, de 50 anos, também foi vacinada. Em seguida, Doria comandou coletiva com ataques fortes ao presidente Jair Bolsonaro e ao ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello. Orientado, Pazuello, tentou justificar que as vacinas usadas por Dória foram pagas com dinheiro Federal. Dória disse que Pazuello, mais uma vez mentiu, e que as vacinas foram pagas com dinheiro do governo paulista. 

Doria reagiu dizendo que a CoronaVac só está no Brasil devido a “investimento do governo de estado de São Paulo”, sem qualquer verba federal. Na sexta-feira, o ministério solicitou por ofício, reforçado no sábado, o envio de todo o estoque de CoronaVac do Butantan, seis milhões de doses, para distribuição entre estados e municípios. O governador diz que vai manter em São Paulo 1,6 milhão de doses e entregar os 4,6 milhões restantes. O estado vai continuar vacinando hoje, começando por 30 mil profissionais do Hospital das Clínicas, que devem estar imunizados até sexta-feira.

No desespero, Bolsonaro decidiu então resgatar o antigo grupo extremista que o elegeu, segundo fontes do Planalto, Bolsonaro resgatou na última semana o "gabinete do ódio”, suspostamente ativo dentro de salas do palácio.  

A decisão de João Doria de aplicar a primeira vacina no domingo gerou mal-estar. Em grupo de WhatsApp de governadores, Wellington Dias (PT-PI) disse que a atitude foi lamentável. ‘O entendimento sempre foi o Brasil numa mesma data. Um estado coloca os demais como de segunda categoria’, escreveu. A insatisfação chegou a Eduardo Pazuello, que sentiu confiança para convidar governadores a um ato simbólico nesta segunda-feira”, quando por pressão dos outros chefes de estado, Pazuello autorizou caso se faça possível a vacinação ainda nesta 2ª-feira. Em Mato Grosso do Sul a vacina deve desembarcar às 10h no Aeroporto Internacional de Campo Grande, trazida em um avião da Força Aérea Brasileira (FAB). 

Autoridades e políticos de todos os matizes comemoraram a aprovação das vacinas. O presidente Jair Bolsonaro, porém, não se manifestou até o momento. E segue em reunião com o tal grupo. O gabinete do ódio ficou conhecido em 2019 e acumulou nos últimos anos episódios relacionados a ataques e disseminação de fake news. Ele é composto por assessores que buscam impulsionar a imagem De Bolsonaro na internet de uma forma menos oficiosa, e mais informal — muitas vezes com memes, vídeos e imagens que se espalham nas redes por meio de correntes virais, que tem como corredor os apps de mensagem privada. Logo depois que retornou da folga de Réveillon, Bolsonaro reuniu os seus subordinados e decidiu realizar mudanças em sua estratégia de comunicação pessoal. Isso ocorreu por dois motivos. Em primeiro lugar, porque o presidente considera que está em desvantagem no "jogo da opinião pública" e está "apanhando muito", conforme o UOL.

O 7 x 1 de João Doria sobre Jair Bolsonaro ontem, no Dia D, aconteceu também nas redes sociais. No Twitter, nos posts que citavam Doria, as hashtgas que estiveram em evidência foram #adeusbolsonaro e #vemvacina — embora não houvesse nenhum movimento estruturado de apoio a Doria. A rede bolsonarista tentou levantar hashtags positivas como #bolsonoarogulhodobrasil e #bolsonaroate2026, mas em vão, de acordo com um levantamento inédito da consultoria Bites.

Em tempo, nem a Fiocruz nem o Butantan têm neste momento insumos para produzir as vacinas aqui. O instituto já usou os 600 litros recebidos da China, e a fundação ainda não tem data para receber o material.

Ver João Doria na TV patrocinando a primeira aplicação da vacina no país não foi o único dissabor de Bolsonaro. Durante a reunião, transmitida ao vivo, em que decidiram a liberação das vacinas, diretores da Anvisa reafirmaram que não existe tratamento precoce nem remédios cientificamente comprovados, ao contrário do que apregoa o Ministério da Saúde.

Paralelamente ao espetáculo midiático em torno da vacina, Manaus continua a sofrer com a falta de oxigênio para os doentes. Não faltam histórias trágicas, como a de Joecy Coelho da Silva, que morreu aos 83 anos, mesmo com parentes se revezando para bombear oxigênio manualmente. Empresas privadas e personalidades estão doando cilindros do gás para os hospitais amazonenses.

O governo federal admitiu ao STF que sabia com detalhes da situação crítica do oxigênio em Manaus desde o dia 8, seis dias antes do colapso, mas não explicou porque não tomou providências.