22 de junho de 2021
Campo Grande 28º 16º

Operação Vintém

O doce e rentável “sacrifício” de Rosinha, um sortudo

A- A+

Em Campo Grande o nome Edmílson Rosa não é tão conhecido quanto o apelido de seu dono: “Rosinha”. Mas entre o quase anonimato do registro oficial do cartório civil e a famigerada popularidade da alcunha disseminada por notícias nada abonadoras, a distância que se percorre é marcada por situações protagonizadas por alguém - não fossem os históricos pessoais -, que poderia ser considerado um homem de sorte, de muita sorte. Afinal, não é para muitos acumular fortuna e prestígio em tão pouco tempo sem receber herança e nem ganhar na loteria.

No dia 17 de janeiro de 2007 Campo Grande acordou para ser destaque nas seções políticas e policiais da imprensa de todo o Brasil. A Polícia Federal havia deflagrado na capital de Mato Grosso do Sul a “Operação Vintém”, denominação escolhida para o cumprimento de cinco mandados de busca e apreensão de pessoas e bens relacionados na investigação de crimes eleitorais. A ordem partiu do Juiz da 53ª Zona Eleitoral.

Uma das motivações para a intervenção policial foi a montagem de um esquema fraudulento concebido para incriminar o deputado estadual Semy Ferraz (PT) e, em consequência, prejudicar sua candidatura à reeleição. Ele era um dos mais ferrenhos opositores dos dirigentes do PMDB, partido que em 2006 comandava a Prefeitura, com Nelsinho Trad.

A repercussão negativa da trama pode ter atrapalhado a reeleição de Semy, mas não impediu que prosperasse o processo por denunciação caluniosa que ele ajuizou contra os que o acusaram naquela que se revelaria uma falsa imputação de crime. Com indícios fortes e escutas telefônicas reveladoras autorizadas judicialmente, a demanda corre sob segredo de Justiça no Supremo.

Apesar disso, mesmo provando ter sido vítima de um golpe, Semy não conseguiu outro intento de sua ação: incriminar cada um daqueles a quem identificou como autores da armadilha, como o secretário (municipal e depois estadual) de Obras, Edson Giroto; o empresário Mirched Jaffar (dono da Gráfica Alvorada); e Edmílson Rosa, o Rosinha. Dos três, só Rosinha está sendo responsabilizado. Ele assumiu toda responsabilidade: intelectual, operacional e financeira, protegendo quem o protegia e dando uma demonstração inequívoca de lealdade e reconhecimento, que seria regiamente compensada.

QUEM É - Paulista de Assis, onde nasceu em 20 de maio de 1969, é casado e pai de quatro filhos. Em São Paulo, atuou por mais de 10 anos na área da pecuária até que, em 1992, mudou-se para Campo Grande, onde abriu a empresa 1001 Utilidades Domésticas e apresentava-se também como arrendatário de terras. Em 1997, passou a atuar também na construção civil. Dez anos depois abriu a RMW Empreendimentos, que direciona seus serviços para atividades de manutenção de rodovias e pavimentação. Hoje, são cerca de 70 empregos diretos gerados em Campo Grande. Todo dia 12 de outubro ele promove uma festa para as crianças na sede da AACC (Associação dos Amigos da Criança com Câncer) e, anualmente, cadastra dezenas de famílias carentes para doação de cestas básicas.

Rosinha não é, portanto, qualquer um. Quem o via carregando malas e dirigindo para seus chefes – geralmente Edson Giroto – não imaginaria a fulminante escalada que o faria ascender a confortabilíssima posição financeira e social, com direito, inclusive, a um título de cidadania campo-grandense, outorgado pela Câmara Municipal por indicação do vereador Vanderlei Cabeludo, do PMDB.

PROSPERIDADE - De encurralado alvo da Operação Vintém em 17 de janeiro de 2007, Rosinha tornava-se 43 dias depois, a 1º de março, personagem importante no mundo dos negócios com a constituição da RMW Empreendimentos Ltda. Constituída com um capital social de apenas R$ 120.000,00 e em nome dos sócios Wanderson Prado Rodrigues, que integralizou 99% das ações (R$ 119.000,00) e William da Silva, que entrou com R$ 1.000,00, a empresa está habilitada na Junta Comercial (Jucems) para operar em obras de acabamento, comércio atacadista de materiais de construção em geral, administração de recursos de caixas escolares em estabelecimentos públicos, para aquisição de merenda e dezenas de outros serviços como manutenção e conservação de prédios públicos e privados, limpeza, recuperação de rus, incorporação de empreendimentos imobiliários, operação e fornecimento de equipamentos para transporte de cargas e pessoas em obras, locação de mão-de-obra, de veículos de diversos tipos (inclusos tratores e muinas), vigilância e segurança.

Com essa base multi-uso de atividades, a RMW emergiu no mercado impulsionada pelas ligações de Rosinha com alguns dos mais influentes agentes políticos de Mato Grosso do Sul. É o que indica sua presença em diversas obras públicas bancadas pelos cofres do governo estadual e prefeituras da capital e do interior. Boa parte dos contratos com o Estado foi garantida pelo secretário de Obras Edson Giroto.

Nos círculos empresariais, políticos e governamentais quase todo mundo sabe que a RMW ou pertence a Rosinha ou ele seria apenas um testa-de-ferro. Seu nome não aparece nos contratos. Geralmente, quem assina é Wanderson Prado Rodrigues ou Neide Antonelo, esposa de Rosinha. Dois exemplos: no Extrato 352/2009, com a Agesul, para manutenção de rodovias estaduais pavimentadas, é Neide quem assina o contrato de R$ 2,8 milhões. Entre os contratos assinados por Wanderson está o de reforma e ampliação da Unei (Unidade Educacional de Internação do Pantanal), em Corumbá, no valor de R$ 830,3 mil.

Para encontrar vínculos que assinalam a RMW entre as empresas licitadas e contratadas pelo Estado basta folhear as páginas do Diário Oficial (DO), como demonstram estes, a seguir:

1)        Aditivo do Contrato 111/2008 com a Agesul (Agência Estadual de Empreendimentos), no valor de R$ 317.687,85. Assinam o secretário de Obras, Edson Giroto, e Wanderson Prado Rodrigues, sócio majoritário da RMW.

2)        Edição do DO de 22/08/2008 publica a RMW como vencedora da Tomada de Preço 174/2008-CLO/Agesul, no valor de R$ 830.309,95

3) Edição de 15/10/2008 publica o extrato do Contrato 557/2008 entre a Agesul e a RMW, no valor de R$ 830.309,95, para reforma e ampliação da Unidade Educacional de Internação do Pantanal (Unei) em Corumbá. Assinam Edson Giroto e Wanderson Prado Rodrigues.

4) Edição de 10/02/09 publica o Aditivo do Contrato 111/08 no valor de R$ 335.068,69. Assinam Edson Giroto e Wanderson Prado Rodrigues

5) Edição de 20/05/2009 publica o Extrato do Contrato 0198/2009 com a Agesul, no valor de R$ 420.402,58, para reforma da Escola  Leme do Prado (primeira etapa) em Ladário. Assinam Edson Giroto e Wanderson Prado Rodrigues  (TP 62/2009)

6) Edição de 20/05/2009 publica o Extrato do Contrato 199/2008 (Agesul) para a segunda etapa da reforma da Escola  Leme do Prado, em Ladário, no valor de R$ 365.491,51. Assinam Edson Giroto e Wanderson Prado Rodrigues (TP 62/2009).

7) Edição de 07/01/2010 publica o Extrato do Contrato 352 /2009 com a Agesul, para manutenção em rodovias estaduais pavimentadas sob a jurisdição da 9a. RER, Setor 9, Região Nova Andradina, no valor de R$ 2.831.202,89. Assinam Edson Giroto e Neide Antonelo (esposa de Rosinha)

8) Edição de 05/01/2012 publica Aditivo do Extrato do Contrato 352 /2009 com a Agesul, para manutenção de rodovias estaduais pavimentadas sob a jurisdição da 9a. RER, Setor 9 - Região Nova Andradina, no valor de R$ 2.831.202,89. Assinam Edson Giroto e Neide Antonelo (esposa de Rosinha).