25 de maio de 2024
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EDUCAÇÃO

UNIGRAN na tenda dos golpistas e o projeto bolsonarista

Esposa de ex-vice-governador nega ligação com grupo radical

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Ao passar pela Avenida Duque de Caxias, em frente o Comando Militar do Oeste (CMO), em Campo Grande (MS), nesta 5ª.feira (5.jan.23), se revela o nome da universidade UNIGRAN, na tenda ‘central’ dos golpistas, que estavam acampados no local desde o dia 30 de outubro de 2022, cobrando um golpe militar.

Na tenda central do acampamento golpista, lona com logo de universidade privada. Foto: Tero Queiroz Na tenda central do acampamento golpista, lona com logo de universidade privada. Foto: Tero Queiroz 

Após a fuga do seu ídolo — Jair Bolsonaro (PL) — que se alojou em Orlando, Flórida (EUA), 48h antes da posse do presidente Lula (PT), os radicais de extrema direita começaram a desmontar as tendas em frente ao quartel na capital sul-mato-grossense. Durante a remoção das lonas, revelou-se o nome da universidade privada.

Acampamento de golpistas de extrema direita começa a ser desmanchado na Avenida Duque de Caxias. Foto: Tero Queiroz Acampamento de golpistas de extrema direita começa a ser desmanchado na Avenida Duque de Caxias. Foto: Tero Queiroz 

A universidade que nasceu em Dourados, assim foi ligada ao bolsonarismo, que comandou nos últimos 4 anos um projeto que visava desqualificar, desmoralizar e destruir a imagem da Universidade Pública, para então tornar a educação superior algo a ser oferecido apenas à burguesia, como afirmou o ministro da Educação bolsonarista Ricardo Vélez Rodríguez — 1º ministro nomeado em 2019 por Jair Bolsonaro. A gestão Vélez durou apenas 3 meses. Ele foi demitido logo após deixar escapar numa entrevista ao jornal Valor Econômico, que “a ideia de universidade para todos não existe”: trazendo à luz o famigerado projeto de educação bolsonarista.

Ricardo Vélez Rodríguez e Jair Bolsonaro. Foto: MEC Ricardo Vélez Rodríguez e Jair Bolsonaro. Foto: MEC 

Naquela ocasião, Vélez ainda fez questão de excluir os menos privilegiados em sua visão de ensino no país. Ele acrescentou que “as universidades devem ficar reservadas para uma elite intelectual, que não é a mesma elite econômica [do país]”.

O ex-presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia de posse do ex-Ministro de Estado da Educação, Abraham Bragança de Vasconcellos Weintraub, no Palácio do Planalto. Foto:  Fátima Meira/Futura Press/Estadão Conteúdo O ex-presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia de posse do ex-Ministro de Estado da Educação, Abraham Bragança de Vasconcellos Weintraub, no Palácio do Planalto. Foto:  Fátima Meira/Futura Press/Estadão Conteúdo 

Depois da demissão de Vélez, o bolsonarismo colocou na Educação o economista radical de extrema direita Abraham Bragança de Vasconcellos Weintraub — tão pior quanto Vélez. Esse também caiu, após 1 ano no cargo. Também estiveram na pasta: Carlos Alberto Decotelli da Silva (3º ministro); o pastor Milton Ribeiro (4º ministro) e Victor Godoy (5º e último). Relembre abaixo o histórico de cada um deles no MEC.

A UNIGRAN tem como presidente de honra o engenheiro Murilo Zauith — ex-vice-governador de Mato Grosso do Sul. A diretora financeira e mantenedora da UNIGRAN, é a empresária Cecília Zauith, esposa do ex-vice-governador.

Murilo e Cecília Zauith. Foto: Redes Murilo e Cecília Zauith. Foto: Redes 

Nas redes sociais, Cecília atuou como bolsonarista ferrenha em 2018. Apesar disso, a UNIGRAN não havia sido até então envolvida nas questões políticas.  

Por mensagem, a reportagem do MS Notícias questionou Cecília se a UNIGRAN apoia o movimento radical bolsonarista. "Eu como Presidente da Mantenedora da Unigran, desconheço esse fato", respondeu a mantenedora. Ela ainda afirmou desconhecer que alguém tenha autorizado o uso da lona no acampamento golpista. "Desconhecemos esse fato que você está relatando, a Unigran é apolítica", sustentou.  

Nesta manhã havia apenas uma pessoa ao redor do acapamento golpista e algumas barracas ainda armadas sob uma das tenda no canteiro central da Avenida. O local, que nos últimos 30 dias foi ponto de muito barulho, hinos e performances de radicais de extrema direita, estava silencioso.  

OS MINISTROS DA EDUCAÇÃO BOLSONARISTAS

Ainda em seu primeiro mês no governo, Weintraub tentou manchar a imagem da universidade pública, relegando o termo “balbúrdia” ao se referir aos espaços em universidades federais. Weintraub defendeu o corte agressivo de investimento na educação superior pública. Weintraub ficou um ano e dois meses no cargo, até ser demitido em 2020 e romper com Bolsonaro.

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Após a queda do poder, Weintraub foi acionado pelo Ministério Público Federal (MPF) por improbidade administrativa, que é um ato ilegal ou contrário aos princípios básicos da Administração Pública no Brasil, cometido por agente público, durante o exercício de função pública ou decorrente desta. O processo aponta reiteradas declarações de Weintraub sobre as universidades públicas brasileiras, enquanto era titular da pasta. Um conjunto de afirmações dolosamente incorretas ou distorcidas que, para o MPF, tiveram o claro propósito de desacreditar o serviço prestado por essas instituições de ensino. Se condenado, o ex-ministro pode ter seus direitos políticos suspensos e ser obrigado a pagar multa.

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Ainda perseguindo a educação pública, Bolsonaro nomeou como 3º ministro da educação em 25 de maio de 2020, Carlos Alberto Decotelli da Silva. Esse ficou cinco dias no cargo de ministro. Antes mesmo de tomar posse, caiu após ser revelado informações de que ele mentiu sobre seu currículo. Decotelli disse naquela época que era “doutor”, mas na verdade não tinha concluído e havia plagiado o projeto de conclusão.

Assim, em 10 de julho de 2020, Bolsonaro nomeou seu 4º ministro da Educação, o Pastor presbiteriano e professor Milton Ribeiro – uma espécie de síntese do bolsonarismo.

Ex-ministro da Educação Milton Ribeiro, durante agenda em Campo Grande (MS). Foto: Tero Queirozz Ex-ministro da Educação Milton Ribeiro, durante agenda em Campo Grande (MS). Foto: Tero Queirozz 

Dono de falas homofóbicas e capacitistas, Ribeiro esteve sempre no centro das polêmicas. Já no 1º mês de sua gestão, durante entrevista ao “Sem Censura” da TV Brasil, ele afirmou que crianças com deficiência “atrapalhavam” os demais alunos sem a mesma condição quando colocadas no mesmo espaço educacional. Após sua fala cair como uma bomba no colo do governo, naquele mesmo mês, durante passagem pelo Recife, Ribeiro tentou justificar a colocação. "Nós temos, hoje, 1,3 milhão de crianças com deficiência que estudam nas escolas públicas. Desse total, 12% têm um grau de deficiência que é impossível a convivência”, defendeu na ocasião, agravando a sua narrativa capacitista. Pastor homofóbico o bolsonarista foi à grande imprensa reproduzir a homossexualidade como uma "opção" e para ele, resultado de "famílias desajustadas". Na época, o ex-ministro bolsonarista pediu desculpas depois que o vice-procurador-geral da República, Humberto Jacques de Medeiros, pediu a abertura de um inquérito contra ele por homofobia. O Enem sob a gestão Ribeiro foi o pior da história da educação brasileira, tendo acumulado erros diversos e menor número de inscritos.

Em março de 2022, Ribeiro foi acusado de repassar verbas a pastores a pedido do atual presidente Jair Bolsonaro, que chegou a defender Ribeiro. "Eu boto a minha cara no fogo pelo Milton", disse na época o ex-presidente. Após ser preso em esquema que envolvia: bíblia, ouro e verba do MEC, Milton Ribeiro, também foi demitido.

Em 18 de abril de 2022, Victor Godoy, que era secretário-executivo do MEC (número 2) e estava como ministro interino desde a queda de Ribeiro, foi nomeado o quinto e último ministro do bolsonarismo. Formado em Engenharia de Redes de Comunicação de Dados pela Universidade de Brasília (UnB) ele passou a integrar o governo em 2020, nomeado por Ribeiro.

Victor Godoy. Foto: Billy Boss/Câmara dos DeputadosVictor Godoy. Foto: Billy Boss/Câmara dos Deputados

Em resumo, uma das principais pastas de evolução de um país, nos últimos 4 anos foi alvo de disputas por cargos entre olavistas e militares. Para conseguir emplacar um ministro eles tinham que atender os critérios do bolsonarismo, o indicado deveria ser anticiência, conservador e privatista. A agenda bolsonarista foi pautada em ataques à educação pública, gratuita, laica e de qualidade.