19 de junho de 2021
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Editorial

No MS, a fusão entre PTB e DEM vai abalar o PMDB e dar guarida à família Trad

Restam apenas detalhes para que o PTB e DEM se fundam. Isso deve implodir o PMDB no estado, dar guarida para a família Trad e alterar o eixo das forças políticas no Mato Grosso do Sul.

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Se existem problemas a serem equacionados pelas direções nacionais do PTB e DEM, e são poucos se comparados com os benefícios de logística política, em Mato Grosso do Sul a fusão das siglas, ainda que também apresente pequenos problemas, trará grandes soluções para uma série de ambições políticas. Isso no restrito universo dos dois partidos, mas provocará estragos no poderoso PMDB que, depois de encilhado, perdeu muito de seu viço.

As questões menores, mas não menos importantes, como definir por qual sigla será conhecida qual número irá utilizar, estão equacionadas. Como '‘antiguidade é posto’', e o PTB foi fundado em 1945 – existiu até 1965 quando a ditadura civil-militar extinguiu os partidos políticos e criou o bipartidarismo, retomou após a “abertura lenta, gradual e segura” sendo registrado provisoriamente em 1980 e definitivamente em 1981 –, mantém a sigla, mas seu número passa a ser o 25, que hoje pertence ao DEM. Resta apenas confirmar se esse modelo híbrido de fusão é permitida por lei.

Essa fusão é indigesta para o governo federal, que conta com pequena parcela de petebistas na base aliada da presidente Dilma Rousseff (PT) e, essa união formaria, a princípio, a quarta maior bancada tanto da Câmara quanto do Senado, podendo crescer devido ao descontentamento gerado pela crescente rejeição ao governo petista, apontado nas últimas pesquisas. A fusão abria a “janela de infidelidade” tão desejada por senadores, deputados e prefeitos que não se sentem confortáveis em partidos aliados a um governo desgastado.

O temor governista tem números: 8 senadores e 47 deputados federais, caso não aja nenhuma defecção petebista, afinal o petebista Armando Monteiro ocupa o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio e outros parlamentares da legenda detém parcela de cargos de segundo escalão, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e a Superintendência de Seguros Privados (Susep). O PTB não considera o Ministério como de sua cota.

Impedir a fusão ou conquistar parlamentares para o PMDB é uma tarefa para Michel Temer e o rebelde líder governista do PTB na Câmara, Jovair Arantes (GO). No entanto, terão pela frente uma adversária aguerrida, a presidente nacional da legenda, deputada Cristiane Brasil (RJ), filha de Roberto Jefferson, figura icônica da sigla.

Cristiane pensa o partido e não parece disposta a se deixar deter por veleidades de pequena parcela de parlamentares. “Se para fazer o omelete precisarmos quebrar alguns ovos, vamos fazer isso”, declara. Ela tem a dimensão da janela que será aberta e de quanto poderá ganhar.

No DEM as coisas correm mais tranquilas, e o único discordante é o seu líder no Senado, Ronaldo Caiado (GO) que questiona o fato de o partido que se firmou como referência na oposição vir a se aliar com um partido que esteve ao lado dos governos petistas. “O eleitor não vai entender”, pontua Caiado.

Aqui em casa

O novo-mesmo-partido (re)nasceria forte a partir da Campo Grande e ganharia importante estrutura na Assembleia, faria uma limpeza necessária no quadro dirigente do PTB estadual e provocaria uma derrocada do PMDB tanto na Câmara Municipal da Capital como nas forças políticas do estado com assento na Assembleia.

O PTB ficaria livre do controle pouco programático de seu presidente, Ivan Louzada e do secretário-geral e real comandante do partido, Walter Carneiro, saindo da incômoda condição de partido pequeno que costuma ser tangido para esta ou aquela direção por conveniências pessoais.

Com a fusão, o deputado federal Luiz Henrique Mandetta passaria a ser a grande estrela Petebista no estado e abria uma importante porta para os primos Nelsinho Trad (PMDB), ex-prefeito de Campo Grande por dois mandatos; Fábio Trad, ex-deputado federal e sem partido; e a ameixa do bolo, deputado estadual e candidatíssimo à prefeitura da Capital em 2016, Marquinhos Trad (PMDB).

Pela indefinição da criação do PL, saído das entranhas do PSD e da esperteza política de Gilberto Kassab, o clã Trad ganharia precioso tempo com a consolidação da fusão PTB-DEM, prevista para maio deste ano.

Leva ainda o deputado estadual e considerável força política da região da Grande Dourados, Zé Teixeira (DEM), que faria o trabalho de atrair políticos daquela região para as novas fileiras. Por fim, provavelmente o também deputado estadual Lidio Lopes, do pequeno PEN, que com o fim das coligações nas proporcionais ficaria sem estrutura partidária para concorrer à reeleição em 2018.

No caso da Câmara Municipal de Campo Grande, daria guarida para dois pesos pesados da política, vereadores Paulo Siufi e Edil Albuquerque, ambos do PMDB, ambos insatisfeitos, ambos prejudicados com o encilhamento do partido.

Edil Albuquerque que tem longa parceria com Nelsinho Trad, de quem foi vice-prefeito e secretário, complementaria e daria força à candidatura Marquinhos Trad, provavelmente como candidato a vice-prefeito novamente, uma vez que tem a confiança e trânsito entre a classe empresarial de Campo Grande.

Paulo Siufi, imbatível para a Câmara Municipal, teria o justo espaço para, em 2018, conquistar uma cadeira na Assembleia, podendo ser o candidato natural para a prefeitura em 2020, contando-se como certa o fim da reeleição a ser aprovada na reforma política.

Tanto Edil Albuquerque quanto Paulo Siufi já declararam que podem abandonar o PMDB em função de suas aspirações políticas.

Contando com Airton Saraiva (DEM), o novo partido teria uma bancada de três vereadores na Capital, dois deputados na Assembleia, um deputado federal, corpo político para aumentar as bancadas nas próximas eleições, além de das lideranças políticas do estado, que atrairia com esta estrutura política que ganharia verba considerável do fundo partidário e tempo precioso de Rádio e TV.

Ao PMDB, o momento de repensar estratégias e liderança. Mais em função da ascensão de novas forças, ficaria pareado com PT, PSDB e o novo PTB. Forma amarga de aprender que tolher novas lideranças mostra mais fraqueza do que força de um líder.