12 de junho de 2021
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Gabrielli: aposta da Shell mostra a força do pré-sal

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A compra da BG pela Shell foi a primeira grande operação de fusão entre petroleiras do mundo nos últimos 20 anos, indicando o retorno do ciclo de concentração do setor, que ocorre todas as vezes que os preços de petróleo caem. Para o Brasil representa um claro reconhecimento da produtividade e oportunidades do pré-sal brasileiro, de onde surgirá o maior potencial de expansão das reservas da nova empresa por décadas, refletindo as expectativas sobre os enormes potenciais desta gigantesca fronteira exploratória de padrão mundial.

Representa também uma avaliação da grande capacidade técnica, operacional e gerencial da Petrobras, especialmente considerando os atuais marcos da legislação nacional, que atribui a ela o papel de operadora única das novas oportunidades do pré-sal, com contratos de partilha de produção.

A Shell não comprometeria 25% do crescimento de suas reservas com operações com empresas que não fossem confiáveis técnica, operacional e financeiramente. O CEO da Shell foi claro: apesar das crises reputacionais, com as denúncias que abundam nas manchetes dos jornais, a Petrobras é uma empresa com enorme capacidade de superar os problemas e comandar os processos de exploração e crescimento da produção

O maior efeito da fusão não será na produção da nova companhia, mas sim no acesso a potenciais reservas, como no campo de Libra e nos benefícios futuros das novas explorações do pré-sal. As estimativas iniciais falam em aumento imediato de 25% das reservas mundiais de petróleo da Shell e de 20% na produção, depois da fusão.

Na busca de novas reservas, as petroleiras têm três alternativas: ampliar a recuperação dos campos já em produção, adquirir novos campos pelo processo de fusões e aquisições de outras empresas ou descobrir novos campos através do investimento em exploração. A maioria das grandes majors adiciona novas reservas pela aquisição de empresas que já investiram na exploração e contam com um bom portfólio de reservas ou potenciais recursos. É o caso da BG no Brasil

Do ponto de vista mundial, a fusão da BG com a Shell cria a segunda maior petroleira do mundo com ações negociadas em bolsa, representa uma clara preferencia de parte da Shell pelo pré-sal brasileiro sobre a expansão do shale gas americano, inaugura um período de grandes fusões em decorrência da queda do preço do petróleo e redefine os papeis dos diversos atores no mercado mundial de GNL (Gás Natural Liquefeito), ampliando a importância das empresas integradas verticalmente.

A Shell identificou nos ativos da BG um grande valor estratégico e pagou um ágio de mais de 50% sobre o valor de mercado das ações. Esta expectativa de ganhos refletiu uma opção estratégica de integrar suas operações de GNL com a produção de gás, nos ativos que a BG tem em Trinidad-Tobago e na Austrália e sua grande presença na comercialização mundial de GNL. A integração entre produção, liquefação e comercialização que a Shell estava buscando nos EUA com suas tentativas com o shale gas serão agora substituídas pela maior atividade no pré-sal brasileiro e exploração na Austrália. Aguas profundas são cada vez mais atraentes para a Shell e para as grande companhias de petróleo do mundo. Neste setor, não há duvida do papel de campeã da Petrobras.

A fusão BG e Shell muda o panorama do setor privado de petróleo e gás no pais. A BG está, entre outros, nos campos do BM-S-9 (Lula, Iracema e Iara) com 30%, e BM-S-50 com 20% no pré-sal, e está em áreas exploratórias na Bacia de Barreirinhas com 50%, com uma produção atual de 137 mil barris dia, representando 20% da sua produção mundial. A Shell tem 20% do campo de Libra e participa do BM-S-54 (Gato do Mato), além do BC-10 (parque das Conchas) e BM-ES-27, onde a Petrobras é a operadora, produzindo 46,4 mil barris dia. A produção conjunta será de 184 mil barris dia.

Vários impactos podem ser esperados desta operação: o segundo maior ator no setor de petróleo e gás no Brasil será o segundo maior grupo econômico mundial do setor, dando mais fôlego financeiro aos consórcios já estabelecidos e definindo um parceiro para a Petrobras com maior poder de negociação.

Outro impacto provavelmente será uma redução do apetite para exploração da nova empresa, devido aos ganhos do volume de reservas advindos da operação de fusão. O maior objetivo será monetizar as reservas já identificadas.

Do ponto de vista da Petrobras, o principal efeito da nova empresa será uma redefiniçao do relacionamento com os parceiros. A Petrobras já está em um intenso processo de remodelação dos mecanismos e procedimentos das suas relações com seus fornecedores e agora precisará se adaptar a ter como parceiro um grande player do mercado mundial.

As discussões sobre os destinos futuros dos marcos regulatórios da exploração e desenvolvimento da produção do pré-sal terão a partir de agora um grande ator privado, com escala global e intensa atividade tanto em petróleo como em gás, além de já ser proprietário da segunda maior rede de distribuição de derivados no Brasil com a Raizen, fruto da fusão da Cosan e Shell, unindo derivados de petróleo e etanol. A lógica da integração da Shell, como seu orientador estratégico, reflete nesta operação de fusão da BG a sua escolha e importância do Brasil como fundamental para seu crescimento futuro. Neste contexto, a Petrobras é também ator fundamental. Dois gigantes se enfrentarão no futuro deste setor.