04 de dezembro de 2021
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Presidente de associação de pacientes vítimas de erros médicos conta alguns casos

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Valdemar Moraes de Souza perdeu seu irmão em 2007 por negligência médica. Isso fez com que ele buscasse trazer um pouco de conforto para as famílias que perderam algum ente por esse motivo, por meio da justiça. Por isso, em 13 de julho do mesmo ano,  ele fundou Associação de Pacientes Vítimas de Erros Médicos.

“Eu achei que não teria repercussão a associação, mas começaram a surgir os casos, as pessoas me procuravam. Entrei em contato com a promotoria, OAB (Ordem dos Advogados Brasileiros) e MPE (Ministério Público Estadual) e recebi total apoio”. O presidente lembra que não tinha noções aprofundadas de medicina e começou a estudar para se inteirar da situação.

Além do caso de seu irmão, o que também impulsionou o seu trabalho foi o caso de Cristiane Medina em junho de 2008. Cristiane morreu uma semana após realizar uma lipoaspiração em Fátima do Sul – distante 237 km de Campo Grande. O médico que fez o procedimento, Alexsandro de Souza, hoje tem sua carteira profissional cassada. Mais de dez mulheres, conforme explica o presidente, ficaram com seqüelas após serem operada  pelo médico.

Quando esses casos chegam até Valdemar, a Associação faz a denúncia junto aos órgãos competentes, como o MPE (Ministério Público Estadual) e as promotorias de justiça. Em relação ao caso das pacientes de Alexsandro, a associação ingressou uma ação diretamente na justiça federal devido ao número de mulheres vítimas da mesma pessoa.

No início, o CRM (Conselho Regional de Medicina) e os médicos do Estado não receberam com bons olhos a associação. O conselho prevê integridade profissional, não admitindo erros, e esse era um dos principais medos, que diversos casos viessem à tona com a associação. “O CRM sentiu que havia necessidade de abrir os olhos”, explica.

Outro caso comentado foi da paciente Rita Stéfani. Tudo começou quando Rita adquiriu uma infecção urinária e foi ao HR (Hospital Regional) para uma consulta, lá foi receitado um antibiótico para que ela fizesse uso durante um período nos horários determinados. Não havendo a melhora, Rita foi até o HU (Hospital Universitário), lá, foi feito o uso de um cateter, de maneira errônea, o que levou a infecção para a corrente sanguínea chegando ao cérebro. Hoje, Rita está paraplégica. Na época, a mãe da paciente conseguiu uma liminar para custear o tratamento.

O caso de Rita foi abafado, porém, quando ainda internada, a associação foi contatada. O caso ganhou repercussão na imprensa, e chegou a ser exibido no programa Fantástico da Rede Globo, e junto aos órgãos competentes devido à negligência médica. “A nossa intenção é mostrar para a sociedade que a associação é levada a sério”, afirma Valdemar.

A associação de pacientes vítimas de erros médicos não possui recursos vindos de terceiros. Valdemar custeia suas viagens e as buscas pela verdade com recursos próprios. O presidente explica como é o processo de denúncia dos casos. Primeiramente ele recebe a denúncia da família, faz o pedido do prontuário no hospital, que muitas vezes é negado. Quando isso acontece, o prontuário é obtido por meio da justiça. Após isso, é realizado um histórico do prontuário, caso seja encontrado o erro entra-se com um recurso contra o médico ou contra o hospital.

Outro caso foi de um bebê de sete meses que ficou conhecido nacionalmente. O menino Enzo nasceu em 2009 com um problema cardíaco no HU. Ao realizar procedimentos para melhorar as condições de saúde do bebê, foi esquecido um cateter no coração de Enzo. Após cerca de 20 dias, ao levar o menino ao posto de saúde foi feito um raio-x e constatado o equipamento. Ao retornar para o HU nada foi feito, então, Enzo foi encaminhado à Santa Casa de Campo Grande para a remoção do cateter.

Com o crescimento da associação, o presidente é questionado se não tem medo de estar envolvido com esse tipo de trabalho. Valdemar responde que não. “Quando fundei a entidade foi para trabalhar com carinho. Eu nunca vou deixar que nenhum caso que chegue até mim sem uma solução. A justiça é morosa, mas não falha”, explica. A intenção é abrir escritórios da associação nos municípios de Dourados- distante 225 km de Campo Grande – e Três Lagoas – distante 338 km da Capital – além de outras cidades do interior.

Sem perder a fé em Deus, Valdemar mantém a entidade viva, como ele mesmo fala, para defender as famílias em situações de negligência médica. O presidente acredita que o projeto irá continuar e cada vez mais terá apoio da população. Para Valdemar, as famílias sentem-se fortalecidas quando  há esse tipo de instituição apoiando-as.  “Eu sempre tento usar palavras de conforto, isso que fortalece as pessoas. As vezes, por mais sérios que sejam os casos, dizer algumas palavras pode confortar a família".

Já muito emocionado e com os olhos brilhando, o presidente lembra reuniões que teve com algumas famílias para conversar. “A vontade é de chorar em alguns casos. Eu jamais vou abafar um erro médico. Vou levar pros órgãos e pra imprensa”.

O presidente tem muitos objetivos. Além da abertura de novos escritórios, outro é construir a “Fundação de vítimas de erros médicos do Brasil, com um presidente e uma sede em Brasília, e representantes em todos os estados brasileiros.

Valdemar através sua fé pede a todos que orem por ele, para que ele tenha forças para manter a associação, que hoje já tem dez anos.

Tayná Biazus