15 de abril de 2021
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ELEIÇÕES 2022

Ataques contra a Lava Jato impulsionam Lula e 'derrete' o bolsonarismo

Ofensiva que uniu esquerda, direita e centrão ocorre simultânea a discussão aberta no MPF nesse 2021, que propõe mudanças profundas em sua organização, com a possível criação da Unidade Nacional Anticorrupção (Unac); a movimentação não foi bem recebida

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) perdeu desde o início deste ano de 2021 parte de sua base de apoio digital, diante do agravamento da crise da pandemia do coronavírus, e ainda viu a aproximação do ex-presidente Lula (PT) no ranking de popularidade digital. Outra atitude de Bolsonaro que leva Lula a subir é o constante ataque do atual presidente contra a Operação Lava Jato, levando a crer que Lula foi injustiçado. Bolsonaro, para defender políticos do Centrão e blindar “os amigos”, uniu-se a outros políticos em ofensivas contra a operação que prendeu, condenou ou denunciou ao menos 34 políticos, das siglas: PT, PMDB (MDB), PSDB, PP, PTB e SD. 

Além de levar políticos à justiça, a Operação prendeu ao menos 60 empresários envolvidos em acusações de propinas a políticos em troca de favorecimentos em licitações. 

A Lava Jato começou em 17 de março de 2014, com uma investigação de lavagem de dinheiro em um posto de gasolina em Brasília – num Lava Jato suspeito, daí o nome da operação. 

Ligando os pontos – e recorrendo a métodos como a delação premiada – os investigadores descobriram uma ramificada rede de propinas pagas por grandes construtoras como a Odebrecht a políticos de quase todos os partidos, para obter contratos com a estatal Petrobras.

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Até o fim de janeiro, em quase sete anos de combate à corrupção, a operação acumulou números significativos: foram 79 fases, 1.450 mandados de busca e apreensão, 211 conduções coercitivas, 132 mandados de prisão preventiva e 163 de temporárias. Durante as fases, foram colhidos materiais e provas que embasaram 130 denúncias contra 533 acusados, gerando 278 condenações (sendo 174 nomes únicos) chegando a um total de 2.611 anos de pena. Foram também propostas 38 ações civis públicas, incluindo ações de improbidade administrativa contra três partidos políticos (PSB, MDB e PP) e um termo de ajuste de conduta firmado.

Mais de R$ 4,3 bilhões foram devolvidos por meio de 209 acordos de colaboração e 17 acordos de leniência, nos quais se ajustou a devolução de quase R$ 15 bilhões. Do valor recuperado, R$ 3 bilhões foram destinados à Petrobras, R$ 416,5 milhões aos cofres da União e R$ 59 milhões foram transferidos para a 11ª Vara da Seção Judiciária de Goiás – decorrentes de ilícitos que vitimaram a estatal Valec. Também se reverteu em favor da sociedade R$ 1,1 bilhão, decorrentes de acordos firmados com concessionárias por meio da Operação Integração, desdobramento da Lava Jato paranaense. Desse montante, R$ 570 milhões são para subsidiar a redução dos pedágios no Paraná e R$ 515 milhões para investimentos em obras nas rodovias do estado.

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A Lava Jato também elevou a popularidade de Sérgio Moro, então juiz que comandava julgamentos em Curitiba. A Lava Jato foi usada por Jair Bolsonaro, como um dos carros chefes de sua eleição em 2018, com o mote: “combater a corrupção”. Apesar disso, foi o próprio presidente quem desmembrou e extinguiu o Grupo. Pelas palavras do mandatário, não seria mais necessário o Grupo investigativo, pois: "Não havia mais corrupção no Governo”, apelando assim ao populismo para tentar reverter o peso negativo desse passo político. 

Bolsonaro convocou seus apoiadores radicais para atacarem o ex-ministro da justiça e para isso, passaram a considerá-lo um "mau juiz" e "covarde" por deixar Bolsonaro. 

Moro só saiu do governo ao notar no que havia se metido. 

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Como já destacamos aqui no MS Notícias, desde 7 de outubro de 2020, soa a memorável justificativa dada por Jair Bolsonaro para o fim da operação. “É uma satisfação que eu tenho, dizer para essa imprensa maravilhosa nossa que eu não quero acabar com a Lava Jato, eu acabei com a Lava Jato, porque não tem mais corrupção no governo. Eu sei que isso não é virtude, é uma obrigação”. A declaração foi feita durante o lançamento do Programa Voo Simples, no Palácio do Planalto.

'VOO DE GALINHA'

Presidente da República, Jair Bolsonaro. Presidente da República, Jair Bolsonaro. Foto: Alan Santos/PR

Desde o voo político, que visava principalmente blindar aliados, amigos e filhos, Bolsonaro vem “derretendo” na opinião pública. 

A sua popularidade nas redes sociais é o principal trunfo de Bolsonaro em busca de sua reeleição em 2022, assim como foi em 2018 para a sua eleição ao Palácio do Planalto, quase sem tempo de TV na propaganda eleitoral, e tem sido no dia a dia de seu governo. Após a saída do símbolo da "operação", Sérgio Moro, ex-ministro da Justiça, sobre acusações de que Bolsonaro queria interferir na Polícia Federal (PF) para blindar investigações em cursos contra seus filhos ou políticos aliados. Bolsonaro nega a acusação que ainda está sob investigação. De lá até este 5 de março de 2021, Bolsonaro perdeu exponencialmente apoiadores. 

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A queda de patamar de Bolsonaro aparece em atualização nesta semana do ranking do Índice de Popularidade Digital (IPD), elaborado pela consultoria Quaest. A métrica avalia o desempenho de personalidades da política nacional nas plataformas Facebook, Instagram, Twitter, YouTube, Wikipedia e Google.

O ex-presidente está confinado em casa por causa da pandemiaO ex-presidente está confinado em casa por causa da pandemia. Foto: REUTERS/AMANDA PEROBELLI

Bolsonaro segue na primeira colocação do ranking, dentre uma lista de 13 nomes que devem influenciar as eleições presidenciais de 2022. O presidente, porém, está em um patamar 20 pontos abaixo em relação ao que acumulava em 2020.

O IPD é medido em uma escala de 0 a 100, em que o maior valor representa o máximo de popularidade. Bolsonaro saiu da casa dos 80 pontos no ano passado e agora se fixou no patamar de 60. A Folha fez uma reportagem sobre (VEJA AQUI).  

Em entrevista ao historiador Marco Antônio Villa em 13 de fevereiro de 2021, Luís Roberto Barroso disse que “eventuais excessos” da Operação Lava Jato não podem desviar o foco do combate à “corrupção sistêmica” que existe no Brasil.

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Falando das mensagens roubadas da operação, o ministro do STF apontou a “operação abafa” que está em curso por meio da aliança de todos os setores para enterrar ações de combate à corrupção. “Não é esse o ponto, alguém ter dito uma frase inconveniente ou não. É que estão usando esse fundamento pra tentar destruir tudo que foi feito, como se não tivesse havido corrupção. O problema do Brasil foi a Lava Jato e os seus eventuais excessos, não foi a corrupção”, ironizou Barroso.

Moro deve usar a operação, assim como fez Bolsonaro, para impulsionar-se nas eleições de 2022. Em uma publicação recente Moro manifestou-se mais uma vez em favor de manterem a Lava Jato.  

UNIÃO DOS POLÍTICOS CONTRA LAVA JATO 

Gleise e os Bolsonaros passam a atacar a Lava Jato Gleise e os Bolsonaros passam a atacar a Lava Jato. Foto: Web 

A ofensiva que uniu esquerda, direita e centrão ocorre simultânea a discussão aberta no Ministério Público Federal (MPF) nesse 2021, que propõe discutir mudanças profundas em sua organização, com a possível criação da Unidade Nacional Anticorrupção (Unac).

Na terça-feira (04. agosto.20), a presidente nacional do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR), foi ao Twitter para comemorar decisões tomadas pela Corte. "(sic) O STF acaba de reconhecer, em julgamento de HC da defesa de Lula, q Sergio Moro atuou politicamente em 2018 ao vazar ilegalmente delação de Palocci às vésperas da eleição. É oficial: Moro atuou para eleger Bolsonaro", afirmou. Não é novidade que esquerda ataque a Lava Jato, principalmente, devido a prisão do ex-presidente Lula. Mas eles recebem nesse sentido, apoio do centrão e da extrema direita.  

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Um dia depois, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho do presidente Jair Bolsonaro, fez críticas à operação Lava Jato e defendeu o procurador-geral da República, Augusto Aras, em entrevista publicada no jornal "O Globo" na quarta-feira (5. agosto.20). Naquele mesmo dia, Flávio também disse que 'pode ser que, porventura' tenha mandado seu ex-assessor Fabrício Queiroz pagar suas contas pessoais, mas com dinheiro do próprio parlamentar.

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Na entrevista daquele dia 5 de agosto, Flávio foi questionado sobre se não considera uma contradição que a Lava Jato reclame estar sendo alvo de desmonte depois de a família Bolsonaro ter sido eleita com discurso alinhado ao da operação. "[Augusto] Aras [procurador-geral da República] tem feito um trabalho de fazer com que a lei valha para todos. Embora não ache que a Lava-Jato seja esse corpo homogêneo, considero que pontualmente algumas pessoas ali têm interesse político ou financeiro. Se tivesse desmonte das investigações no Brasil, não íamos estar presenciando essa quantidade toda de operações", disse.

No último dia 26 de fevereiro de 2021 Bolsonaro usou seu perfil no Twitter para atacar um dos procurados chefes da Lava Jato, Deltan Dalagnol:  

 

 

 

 

Presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) atacou as investigações conduzidas pela Operação Lava-Jato em 27 de fevreiro de 2021. Para ele, que participa da live do grupo de juristas Prerrogativas, o vazamento de mensagens trocadas pelo ex-ministro Sérgio Moro e procuradores mostra uma “combinação de resultado” e é preciso que o Congresso trabalhe em mudanças na lei para evitar que esses excessos se repitam.

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“Os vazamentos do hacker mostraram o que todo mundo já sabia. Aquilo [as mensagens] não é diálogo, é combinação de resultado. A Lava-Jato durou seis anos, o dobro do período do terror na França. Todos fomos vítimas da Lava-Jato. Eu fui acusado sem ter relação com o delator, meu inimigo político pessoal. Quem faz delação nos moldes da Lava-Jato em Curitiba, acusa quem quiser”, apontou. “Ninguém pode ser denunciado sem provas, só com a palavra de um criminoso. Precisamos que as leis sejam mais claras, para que esses excessos, esse ativismo nunca mais ocorra”.

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ALIADOS AO PODER

Presidente entra na segunda metade do governo em aliança com o Centrão e ao lado de legião de aliados envolvidos em investigaçõesPresidente entra na segunda metade do governo em aliança com o Centrão e ao lado de legião de aliados envolvidos em investigações. Foto: O Globo.  

O novo presidente da Câmara dos deputados, eleito com apoio de Jair Bolsonaro, é réu no STF em duas ações: o quadrilhão do PP e uma acusação de recebimento de propina da Companhia Brasileira de Trens Urbanos – CBTU. O PGR Augusto Aras, tenta arquivar a denúncia que apura se Lira recebeu R$ 1,6 milhões em propina da Queiroz Galvão. Nessa semana (1 a 7 de março), ao ser confrontado por decisão do Supremo Tribunal Federal, Aras disse que iria “lutar com unhas e dentes” para que a denúncia seja arquivada.  Lira também foi alvo da Lava-Jato.

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No ano passado, diante das dificuldades que enfrentava no Congresso, o presidente buscou uma reaproximação com líderes do partido e selou aliança com o deputado federal Arthur Lira (PP-AL), a quem passou a chamar de “meu malvado favorito”. Ainda antes de vencer a eleição para presidente da Câmara com o apoio explícito e o patrocínio, na forma de cargos e emendas, do Palácio do Planalto, Lira já era visto na Casa como um líder informal do governo Bolsonaro.

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Uma vez no comando da Câmara, assumiu o protagonismo da interlocução entre governo e Congresso: é, de um lado, quem influencia a aprovação de pautas como a volta do auxílio emergencial e, de outro, quem cobra espaço do Centrão numa possível reforma ministerial.

O senador Ciro Nogueira (PI) passou a ter grande influência no Palácio do Planalto desde o ano passado e começou a ser chamado no Congresso de “zero cinco”, em referência à numeração dada aos filhos biológicos do presidente. Ciro Nogueira é réu no STF na ação do “quadrilhão do PP” e foi alvo de duas denúncias ainda não recebidas pelo Supremo. Uma delas o acusa de corrupção passiva e lavagem de dinheiro por meio de repasses da Odebrecht.

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Os líderes do governo no Congresso também estão enrolados com investigações. O do Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), foi alvo de operação da PF em 2019 sob suspeita de receber propina quando era ministro da Integração Nacional do governo Dilma. O inquérito está em andamento.

ABAIXO O GRÁFICO DO O GLOBO MOSTRA OS ALIADOS DO BOLSONARISMO INVESTIGADOS PELA EXTINTA LAVA JATO

Eram investigados pela Lava Jato

*Com informações do O Globo.