28 de junho de 2022
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PF acha corpos de Dom Phillips e Bruno Pereira

Indigenista e jornalista britânico estavam desaparecidos desde 5 de junho

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A Polícia Federal (PF) encontrou 2 corpos que acredita ser do indigenista brasileiro Bruno Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips que estavam desaparecidos desde o dia 5 de junho, na comunidade indígena do Vale do Javari, no município de Atalaia do Norte (a 1.138 quilômetros de Manaus). A informação foi confirmada na noite desta quarta-feira (15.jun.22) em entrevista coletiva realizada na sede da PF Amazonas.

Mais cedo, mostramos aqui no MS Notícias, que um dos suspeitos foi levado para a área de buscas pelos investigadores. Pouco depois, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Anderson Torres, confirmou que "remanescentes humanos" foram encontrados no local.

Os corpos foram encontrados a 3,1 quilômetros do local onde os suspeitos relataram ter ocorrido o crime, mata adentro. A identificação dos corpos será feita a partir de quinta-feira (16.jun.22), no Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal, em Brasília.

Nesta noite, porém, a Polícia Civil do Amazonas disse confirmar que os corpos são do indigenista Bruno e do jornalista britânico.

O delegado Guilherme Torres, diretor do Departamento de Polícia do Interior (DPI) da PC-AM sustentou a identificação dos corpos.  

“Conseguimos encontrar os corpos, e prender os envolvidos nesse crime extremamente brutal. Isso só foi possível devido aos esforços somados junto às forças de segurança”, enfatizou Torres.

BUSCAS

No dia 6 de junho a PC do Amazonas iniciou as investigações em relação ao desaparecimento, realizando oitivas e diligências pelas localidades adjacentes ao Vale do Javari. No dia posterior (7.jun), Amarildo da Costa de Oliveira, de 41 anos, o “Pelado”, foi preso em flagrante com munições de uso restrito e passou a ser investigado por envolvimento nos desaparecimentos.

No dia 9 de junho, foram encontrados vestígios de sangue em uma embarcação de propriedade de Amarildo, e no dia 10, um material orgânico, aparentemente humano, foi encontrado próximo ao porto do município. O material foi recolhido e enviado para Manaus, onde passou por perícia.  

Em continuidade aos trabalhos investigativos, na terça-feira (14.jun), a PC recebeu o apoio da PF, cumprindo mandados de busca e apreensão contra Oseney da Costa de Oliveira, também de 41 anos, conhecido como “Dos Santos”. Ele é irmão de Amarildo, e também é apontado como suspeito de participação no caso.

Segundo informações da Polícia Civil, ainda na terça-feira, Amarildo foi novamente ouvido e confessou o crime, indicando inclusive onde estava a lancha, bem como os corpos das vítimas. O indivíduo conduziu os policiais ao local, onde os corpos foram localizados

O delegado Alex Perez, titular da Delegacia Interativa de Polícia (DIP) de Atalaia do Norte, está conduzindo o Inquérito Policial (IP) sobre o caso.

A PF 

O delegado Eduardo Alexandre Fontes, superintendente regional da PF, confirmou a dinâmica da operação de busca,  

Fontes disse que 'Pelado' voluntariamente indicou nesta manhã (15.jun) onde as vítimas foram mortas e onde estavam os corpos, assim como onde afundou a embarcação, numa área de "dificílimo acesso".

— Ontem [terça-feira - 14.jun] à noite, o primeiro preso [Pelado] no final da noite resolveu confessar a prática criminosa. Ele narra com detalhes e aponta o local onde havia enterrado os corpos. Saímos cedo ao local [nesta quarta-feira - 15.jun] e lá houve demora porque realizamos a reconstituição do crime. Depois fomos ao local onde ele disse que havia enterrado os corpos e onde havia afundado a embarcação —  esclareceu o delegado.

No último domingo, a PF confirmou que foram encontrados uma mochila e documentos pertencentes à dupla. Dois dias antes, policiais haviam encontrado "material orgânico aparentemente humano" na região.

Além de restos mortais na embarcação de "Pelado", a polícia disse que ouviu testemunhas que indicaram que Pereira e Phillips foram seguidos pelos irmãos ao sairem da comunidade de São Rafael com destino à Atalaia do Norte, na manhã do último domingo (5.jun), quando desapareceram. 

Diversos órgãos, sob coordenação da PF, como a PC, a Secretaria de Segurança Pública (SSP-AM), a Polícia Militar (PMAM), Corpo de Bombeiros Militar (CBM-AM), Fundação Nacional do Índio (Funai), organizações e associações nacionais e internacionais teriam trabalhado nas buscas, apesar de a Funai bolsonarista ter mais atrapalhado do que ajudado.  

A UNIVAJA

A União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), movimento indígena que representa os povos que habitam a Terra Indígena Vale do Javari, divulgou uma nota, na noite desta quarta (15.jun.22), em que também confirma que os corpos achados eram de Dom e Bruno.  

"{*}Hoje, 15/06/22, após 11 dias de buscas, obtivemos a notícia de que os corpos de Pereira e Phillips, nossos parceiros e defensores dos Direitos Humanos, foram encontrados pelos órgãos competentes envolvidos nas buscas", diz em nota.

DESPEDIDA: A União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), movimento indígena representativo dos povos que habitam na Terra Indígena Vale do Javari – Marubo, Matis, Matsés, Kanamari, Korubo, Tsohom-dyapa e povos indígenas isolados – vem a público se manifestar sobre o assassinato do indigenista brasileiro Bruno Pereira e do jornalista britânico Dominic Phillips. Nos solidarizamos com as famílias de Bruno e Dom, nossos parceiros, expressando o nosso pesar e profunda tristeza diante dessa perda. Para nós, povos indígenas do Vale do Javari, é uma perda inestimável.

Diante desse fato, a Univaja vem à público destacar dois aspectos:

A entidade então segue externando em nota agradecimento à EVU, ao 8º Batalhão da Polícia Militar em Tabatinga, e à imprensa nacional e internacional. "Nós, Univaja, participamos ativamente das buscas desde o dia 05/06/22 através da Equipe de Vigilância da Univaja (EVU). Fomos os primeiros a percorrer o rio Itaquaí atrás de Pereira e Phillips ainda no domingo, primeiro dia do desaparecimento dos dois. Desde então, a única instância que esteve ao nosso lado como parceira nas buscas foram os policiais militares do 8º Batalhão em Tabatinga (AM)", denunciam. Confrontando a afirmação do Governo brasileiro que vem dizendo que esteve nas buscas desde os primeiros dias.

Em nota a Univaja segue: "Fomos nós, indígenas, através da EVU, que encontramos a área que, posteriormente, passou a ser alvo das investigações por parte de outras instâncias, como a Polícia Federal, o Exército, a Marinha, o Corpo de Bombeiros etc. Foi a equipe de vigilância da Univaja que entrou na floresta em busca de Pereira e Phillips para dar uma satisfação aos seus familiares. Foi a equipe de vigilância da Univaja, a EVU, que indicou para as autoridades o perímetro a ser vasculhado em profundidade pelos órgãos estatais. Para isso, nós contamos com a colaboração e proteção constante dos policiais militares do 8º Batalhão em Tabatinga (AM): os únicos a nos tratarem como verdadeiros parceiros na busca, valorizando o nosso conhecimento e a nossa sabedoria enquanto povos indígenas, conhecedores do nosso território", continuou.

"Viemos à público prestar agradecimentos ao Coronel Cavalcante, aos policiais militares do 8º Batalhão em Tabatinga (AM) que nos acompanharam nas buscas, e também à imprensa nacional e internacional que foi nossa parceira, nos ajudando a levar para o mundo inteiro ouvir a nossa voz e conhecer o que está acontecendo em nossa região", seguiu.  

A entidade ainda destacou que o caso não terminou. "Sabemos também que, ao longo das buscas, as forças policiais efetuaram duas prisões: Amarildo da Costa Oliveira (vulgo Pelado) e Oseney da Costa Oliveira (vulgo Dos Santos). No entanto, a Univaja compreende que o assassinato de Pereira e Phillips constitui um crime político, pois ambos eram defensores dos Direitos Humanos e morreram desempenhando atividades em benefício de nós, povos indígenas do Vale do Javari, pelo nosso direito ao bem-viver, pelo nosso direito ao território e aos recursos naturais que são nosso alimento e garantia de vida, não apenas da nossa vida, mas também da vida dos nossos parentes isolados", diz a Univaja. 

"Desde 2021, a Univaja qualificou informações sobre as invasões na Terra Indígena Vale do Javari, através da Equipe de Vigilância da Univaja (EVU). Enviamos uma série de ofícios com informações qualificadas ao Ministério Público Federal, à Polícia Federal e à Fundação Nacional do Índio. Nesses ofícios, indicamos a composição de uma quadrilha de pescadores e caçadores profissionais, vinculados a narcotraficantes, que ingressam ilegalmente em nosso território para extrair nossos recursos e vendê-los nos municípios vizinhos. Fornecemos informações através de nossas denúncias às autoridades competentes. Mas as providências não foram tomadas com a devida rapidez. Por isso, hoje assistimos ao assassinato de nossos parceiros: Pereira e Phillips", assinalou. 

"Diante disso, manifestamos nossa preocupação com a continuidade das investigações. Pelado e Dos Santos fazem parte de um grupo maior, nós sabemos. Manifestamos nossa preocupação com nossas vidas, a vida das pessoas ameaçadas (pois não era somente o Bruno Pereira), componentes do movimento indígena, quando as Forças Armadas e a imprensa se deslocarem de Atalaia do Norte. O que acontecerá conosco? Continuaremos vivendo sob ameaças? Precisamos aprofundar e ampliar a investigação. Precisamos de fiscalização territorial efetiva no interior da Terra Indígena Vale do Javari. Precisamos que as Bases de Proteção Etnoambiental (BAPEs) da Funai sejam fortalecidas", finalizou em nota a Univaja.  

MOTIVAÇÃO 

A PF disse que lavagem de dinheiro para o narcotráfico por meio da venda de peixes e animais pode estar relacionado ao desaparecimento da dupla.

O GLOBO disse que apreensões de peixes que seriam usados em esquema por criminosos foram feitas recentemente por Pereira, que acompanhava indígenas da Equipe de Vigilância da União dos Povos Indígenas do Javari (Unijava). 

As embarcações levavam toneladas de pirarucus, peixe mais valioso no mercado local e exportado para vários países, e de tracajás, espécie de tartaruga considerada uma especiaria e oferecida em restaurante sofisticados dentro e fora do país.

A ação de Bruno Pereira contrariou o interesse do narcotraficante Rubens Villar Coelho, conhecido como "Colômbia", que tem dupla nacionalidade brasileira e peruana.

Ele usa a venda dos animais para lavar o dinheiro da droga produzida no Peru e na Colômbia, que fazem fronteira com a região do Vale do Javari, vendida a facções criminosas no Brasil. Há suspeita de que ele teria ordenado a Amarildo da Costa de Oliveira, o Pelado, a colocar a “cabeça de Bruno a leilão”.